Em que acredito na ilustração?

Dias atrás, estava lendo sobre o que nos move e no que acreditamos. Então, pensei: por que não fazer um ‘manifesto’ do que acredito?

E, é claro, coloquei meus pensamentos a respeito da Ilustração em 10 itens e chamei de Manifesto da Trilha Ilustrada.

Aí vai:

1. Aprender a desenhar é treinar não somente a mão, mas também o olhar, seu jeito de ver as coisas. Ver texturas, cores e até mesmo narrativas em outros contextos, como filmes e livros que não são infantis.

2. Todo ilustrador está sempre aprendendo. O desenvolvimento acontece quando o estudo e a prática deixam de ser esporádicos e se tornam parte da rotina. E estamos sempre nos aperfeiçoando, melhorando, querendo fazer cada dia melhor. Faz parte da arte.

3. Assim como aprender técnicas, é preciso compreender como se faz um desenho que conta uma história. E nisso, a forma, a proporção, a composição entram como fundamentais. Anatomia e perspectiva não são tiranos que te impedem de fazer o ‘perfeito’. São auxiliares que te ajudam a transmitir uma mensagem visual ainda melhor. Temos que cuidar, no entanto, para que o perfeccionismo não tire a espontaneidade de nosso trabalho.

4. Cada traço conta. Tudo que você coloca na sua ilustração conta. Linhas firmes ou fluidas, cores, texturas e elementos incorporados — tudo transmite sensações e emoções. Suas escolhas refletem o seu estilo.

5. O estilo nasce da repetição consciente de alguns detalhes. O estilo surge quando sua técnica encontra consistência e as suas escolhas começam a refletir você e sua personalidade em seu trabalho.

6. Ninguém nasce ilustradorme desculpe, mas não vi ainda um bebê que desenhe melhor que outro. Nos tornamos ilustradores quando nos dedicamos a esse trabalho com dedicação e seriedade, e não nos deixamos abater pelos altos e baixos da vida (que tem em qualquer profissão).

7. O chamado talento pode até ajudar no início. Quem tem aptidão, já começou com vantagem. Porém, mesmo que não tenha, acredito que todos podem aprender a ilustrar, com disciplina, estudo e dedicação. E lembre-se: o trabalho duro vence o talento, quando o talento não trabalha duro.

8. Ter uma mentalidade otimista, de paciência e persistência. Não se deixe abater por críticas e julgamentos, nem tenha medo de expor seu trabalho. O seu trabalho é importante e impacta a vida das crianças. Eu sei, é dificil, mas não existe o bônus sem o ônus.

9. Comparar-se aos outros desanima e atrapalha o processo. Cada ilustrador é único e a única métrica válida de comparação é a evolução do próprio trabalho. Aquele ilustrador que você admira pode ter passado anos trabalhando de modo anônimo, até que um dia colheu os frutos do seu trabalho.

10. Ser proativo para aprender e aplicar, e ter paciência para aguardar os resultados. Porque, se você realmente se dedicar, estudar e se aprimorar, os frutos virão.

E você, acredita nisso também? Comente abaixo.

Como lidar com o medo de começar

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Todo ilustrador começa com medo. Uns disfarçam melhor, outros travam de vez. Mas ninguém está imune àquele friozinho que aparece quando a gente olha pro papel em branco e pensa:“E se eu não for bom/a o suficiente?”

A verdade é que o medo não é sinal de que você está no caminho errado. Ele é apenas o lembrete de que você está prestes a fazer algo importante.

O medo como parte da jornada

No início, a gente acha que o medo vai desaparecer quando ficar “bom”. Mas não vai. Pior que ele continua lá. Eu sei sobre isso muito bem. O medo de começar se torna o medo de ‘e se não gostarem’?

No começo, o medo é de começar. Depois, é de mostrar. Mais tarde, de não ser aceito/a, de não conseguir viver disso, de decepcionar alguém. De alguém nos criticar.

Eu mesma, quando comecei, sentia medo de mostrar meus trabalhos. Achava que todo mundo desenhava melhor do que eu — e que se eu mostrasse o meu desenho, iriam dizer ‘que legal’ — e, por trás, dizer que eu não levava jeito para a coisa.

Hoje, depois de mais de trinta livros ilustrados, às vezes ainda sinto medo… e vou te falar — de coração — que tem uma frase que todo mundo fala que é muito verdade:

— Se tá com medo, vai com medo mesmo.

Por que o medo paralisa

O medo faz parte da vida. Ele tem uma função útil: ele tenta nos proteger.

Mas, na arte, ele se confunde com o perfeccionismo — aquela voz interna que diz que o traço ainda não está bom, que a ideia ainda não é original o bastante, que o material — ou a hora certa — ainda não chegou.

E é aí que a gente trava: esperando o momento ideal. Aquele dia em que vai sobrar tempo, inspiração e coragem ao mesmo tempo — o que, convenhamos, nunca acontece.

O segredo é aceitar o medo e começar mesmo assim. Não existe “sem medo”. Existe apesar do medo.

A prática como antídoto

Se tem uma coisa que aprendi com o tempo é que ação gera coragem. Não o contrário.

É fazendo que vamos ‘nos tornando’ ilustradores. É desenhando com a mão trêmula que você aprende a firmar o traço. É terminando o primeiro desenho torto que você se aproxima do segundo — que já sai um pouco melhor.

A prática é o que transforma medo em confiança. Cada vez que você termina um desenho, ainda que imperfeito, você acumula uma pequena prova de que é capaz. E são essas pequenas provas que, juntas, constroem o que a gente chama de segurança.

Foi só depois de ‘alguns livros’ que eu me senti confortável em dizer que eu era — de fato, ilustradora. Hoje, mesmo finalista do Prêmio Jabuti, tem horas que eu ainda me surpreendo: e não é que eu realizei o meu sonho de ser ilustradora? Acho que todo mundo tem um pouco disso.

O mito do talento

Muita gente diz: “Não nasci com talento pra isso”. Mas o talento é um mito confortável. Ele faz parecer que quem tem sucesso nasceu pronto — e, por consequência, quem tem medo estaria condenado a não conseguir.

Na verdade, o que existe é constância. Quem desenha bem é quem não parou quando o desenho ficou feio. É quem entendeu que cada tentativa é parte da lapidação do olhar e da mão.

Se o seu traço hoje não é o que você queria, não é porque falta talento — é porque falta tempo de prática.

Existem muitos tipos de medo, e reconhecer qual é o seu já é metade do caminho. Há o medo técnico, de não saber desenhar “direito”, de errar as proporções, de não dominar o material.

Há o medo emocional, aquele que sussurra que o seu trabalho nunca será bom o bastante.

E há o medo social, de se expor, de ser julgado, de ouvir críticas. Para mim, esse é um dos piores.

Cada um deles pede um antídoto diferente, mas todos têm cura parecida: ação constante, gentileza consigo mesmo/a e foco no processo, não no resultado.

Algumas sugestões simples, mas que ajudam:

  • Faça um desenho pequeno todos os dias — um traço, um estudo, um esboço. A constância é o melhor remédio contra o medo. Tente melhorar alguma coisa todo dia.
  • Estude livros infantis e veja as soluções que os ilustradores fizeram. Às vezes, você tá tão focado em fazer anatomia perfeita que esquece que a espontaneidade é mais importante no traço que a perfeição. Nem todos os ilustradores adotam perspectiva nem perfeição anatômica. Até as mãos, às vezes só tem 4 dedos.
  • E, por fim, inspire-se, mas não compare o seu trabalho com o dos outros. Talvez eles tenham mais anos de prática, talvez tenham mais experiência. Compare o que você fez no ano passado com o que faz agora. E vai notar que a prática faz realmente diferença. 🙂

Vou fazer um workshop gratuito no sábado, dia 01/11, às 8h.

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10 erros que todo iniciante em ilustração comete (e como evitar cada um deles)

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Quando a gente começa a desenhar, é fácil achar que o problema está em “não ter talento”. Na verdade, essa ideia já está até enraizada na gente.

Mas, na verdade, o que atrapalha são alguns hábitos e o que a gente hoje em dia chama de crenças limitantes, que quase todo iniciante carrega.

Eu mesma já passei por todos eles — e é preciso, além de agir, mudar um pouco nossa mentalidade.

Aqui estão os 10 erros mais comuns que vejo:

1. Comparar o próprio traço com artistas experientes

Eu sei. A gente vê eles fazendo tudo LINDO e dá até um desânimo, né? A gente pensa: nunca vou chegar nesse nível. Mas esquece que eles tem anos de experiência.

Você sabia que, só de ilustrações publicadas, eu já fiz mais de 1000? Isso, fora as que ainda não foram publicadas, painéis, ilustrações avulsas, etc…

Temos que entender que é até injusto – consigo mesmo(a) – se comparar com quem desenha há anos.

E como eu já falei uma vez num outro artigo, tente se comparar com você mesmo(a) de três, seis meses ou até 1 anos atrás. Esse é o progresso que realmente importa.

Pegue uns desenhos do ano passado e coloque lado a lado e compare com os de hoje. Não estão muito melhores? 

Eu vejo, hoje, ilustrações que fiz quando comecei, em livros publicados, e penso: que vontade de refazer. Rsrs…. Mas faz parte de minha história: eu tive que ‘engatinhar’ antes de começar a andar.

2. Querer estilo próprio antes de dominar o básico

Todo mundo sonha em ter “um traço único”. Eu até dou aulas sobre estilo no meu curso Método INGRID.  Mas… estilo é consequência de prática, não ponto de partida. 

Eu costumo dizer que não é você que encontra seu estilo: é ele que te encontra à medida que você vai desenhando e praticando.

Primeiro aprenda fundamentos — formas, proporções, luz, sombra.  Seu estilo, provavelmente, vai nascer daí.

3. Ignorar proporções e formas simples

Eu sempre digo que não é preciso desenhar perfeitamente, com anatomia e perspectiva impecáveis. Mas, é verdade que, ter uma base ajuda muito. 

Uma ilustração não precisa, sobretudo na área de literatura infantil, ser perfeita.

O imperfeito também é bonito, mas mesmo assim, pratique muito, faça e refaça suas ilustrações, tentando melhorar o primeiro esboço. 

Acredite: eu faço isso até hoje (dá uma olhada na imagem do esquilo).

4. Não estudar luz e sombra

Luz e sombra também não precisam ser perfeitos. Algo imperfeito pode até se tornar divertido, como uma sombra diferente do objeto para enfatizar algo. 

Mas, sem luz e sombra, o desenho pode ficar muito “chapado”, sem volume.

E é um fato que, num mundo em 3 dimensões, luz e sombra dão um toque especial a qualquer ilustração. 

Experimente iluminar um objeto e desenhar as partes claras e escuras. É simples, mas muda bastante.

5. Exagerar nos detalhes cedo demais

Já vi muitos alunos se perderem em texturas e cores sem antes acertar a composição. Primeiro, pense no conjunto. Depois vá refinando os detalhes. 

Veja se o todo fica legal antes de começar a desenhar cada fio de cabelo. Às vezes, eu viro a página e vejo de cabeça para baixo, pois ajuda muuuuito a perceber se algo não está legal. 

E é nessa hora que eu aproveito para refinar o que não está bom. 

6. Medo de errar o traço

Esse medo deixa o desenho duro, sem vida. Solte a mão. Permita-se rabiscar, errar, apagar, tentar de novo. O erro faz parte do aprendizado. 

Eu costumo usar papel vegetal para esboçar e depois repasso numa outra folha quando cheguei ao que queria. Isso faz com que você não tenha medo do papel em branco e seu traço fica leve.

Você pode usar papel vegetal ou uma mesa de luz (a minha é uma luminária plana), como essas daqui: https://amzn.to/481dlBI

7. Não observar referências reais

Quando desenhamos só “da cabeça”, caímos sempre nos mesmos formatos.

Infelizmente, a gente acha que sabe exatamente como é um objeto, mas quando vai ver, aquele objeto pode ser de vários formatos. 

Olhe para o mundo real.  Observe pessoas, objetos, animais… e depois transforme isso em ilustração. Você vai ver que tem muitas variedades de uma só coisa e isso vai transformar seu trabalho de ilustração. 

8. Pular a etapa do rafe/esboço

Começar direto no “final” é receita para frustração. Faça rascunhos soltos, experimente, brinque com possibilidades.

Faça thumbnails, experimente composições… O rascunho é um “laboratório”, não perda de tempo.

9. Usar materiais ruins ou inadequados

Você não precisa ter os materiais mais caros. Mas também não precisa desenhar com caneta num caderno pautado da sua infância. Acredite: já recebi ilustrações no Instagram que eram feitas assim e com papéis até rasgados. 

Lápis que não desliza, papel que rasga, tinta de má qualidade…tudo isso atrapalha. Não precisa ser o material mais caro, mas escolha ferramentas mínimas de qualidade para não se frustrar.

Às vezes, não queremos gastar num bom lápis, mas a diferença entre você ficar satisfeito com seu trabalho, ou não, pode estar na qualidade do material. E esses materiais nem sempre são mais caros do que aquele cafezinho, tomado todo dia, por um mês inteiro.

Há efeitos que eu faço, nas minhas ilustrações, que nem todas as marcas de tinta permitem. Algumas são muito líquidas, ou muito ‘plásticas’, não deixando passar o lápis por cima. Podem até ser mais caras, mas duram anos.

10. Desistir rápido demais

 Muita gente para porque acredita que “não nasceu com talento”.  Mas desenhar não é dom — é prática, treino e curiosidade. Se você continuar, vai evoluir. Não tem como não se desenvolver.

A prática não leva à perfeição, mas leva ao aperfeiçoamento. Algumas pessoas vão pegar rápido, e outras vão demorar mais. Mas com prática, aprendizado e constância, a gente chega lá.

Conclusão

No fim, todos esses erros têm um fundo em comum: a pressa. Pressa de ter estilo, pressa de ver resultado, pressa de parecer profissional.

Eu sei: eu também não gosto de esperar. Quem gosta, né?

Mas aí tem o problema: a gente não quer esperar, mas ficamos procrastinado para começar. 

Não percebemos que, se todo dia fizermos um pouquinho, o tempo passa tão rápido que, quando a gente vê, já conseguiu chegar ao objetivo.

E o pior: a vida passa e perdemos tempo só fazendo o que é urgente e não trabalhamos no que nos dá propósito.

Na sua jornada de ilustração, cada esboço vira um passo importante.

A sacada é: prática sem aprendizado vira repetição “cega”.

Aprendizado sem prática fica só na teoria.

E os dois, sem constância com propósito, se perdem no tempo.

Se quiser começar com algo pequeno, experimente o meu Curso Online de Desenho de Personagens. Tenho certeza de que vai gostar. Olha só o que a Maria e a Cris falaram:

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Não apenas páginas impressas…

Um livro não são apenas páginas impressas. Um livro é um sonho realizado, de quem deseja contar sua história, seja por texto seja por ilustração, e que deseja deixar um legado no mundo.

Abaixo, vemos o DÉCIMO livro da Vivência do Ilustrador, sendo impresso. Mais um sonho realizado e concretizado num livro físico, em papel, para ser folheado e apreciado pelos pequenos leitores. 🙂

O Impacto da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL no Mercado de Ilustração – Minha opinião

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Dias atrás, recebi uma mensagem de uma ilustradora iniciante me perguntando sobre qual será o impacto da IA no mercado de ilustração.

Minha opinião: já impactou, e muito. Veja: em 2023, já chegou ‘causando’, sendo finalista do Prêmio Jabuti na categoria ilustração. Foi desclassificada, e isso gerou bastante polêmica.

Mas fica aqui comigo que tenho algumas considerações a respeito do assunto.

Com relação à IA, não somente o futuro é incerto, pois já impactou e continua a impactar. É o nosso novo concorrente. Há pesquisas relatando perda de trabalho para ilustradores, escritores, tradutores, copywriters e também há pesquisas dizendo que há um ‘cansaço’ das imagens produzidas pela IA. 

Mas o fato é que, a princípio, foi uma febre, todo mundo empolgado. 

Eu até ouvi de um cliente:: 

— ‘Olha que lindo esse trabalho feito com IA’. 

E eu, que não sou ‘boba nem nada’, já entendi nas entrelinhas: 

— ‘Ficou muito melhor que o seu – e ainda é de GRAÇA’. 

Claro que fiquei bem preocupada: o que será de minha carreira? E todo o esforço que fiz para realizar meu sonho? E todos os cursos e investimentos em materiais? E o tempo, será que foi tudo perdido? O que será de mim agora?

Mas… aos poucos fui percebendo que a empolgação com imagens geradas por IA começou a diminuir. Eu comecei a ouvir: 

— “Ui! É feito com IA.”

— “Olha que feio! Tem 6 dedos!”

— “Tudo igual…”

Até aquele cliente, que tinha ficado empolgado com a IA logo que começou a moda, me disse na semana passada: 

— “Viu aquele trabalho X da empresa Y? Foi feito com IA” – disse ele, com cara de ‘nojinho’. 

Obviamente, fiquei super feliz em ver que ele já tinha enjoado do estilo. Pela expressão dele, parecia que estava mais estava ‘enojado’ do que ‘enjoado’. 

Essa interação, entre outras, me fez perceber algo:

Mesmo os que estavam empolgados – ou até mesmo fascinados – com a geração de imagens de IA, começaram a ficar cansados de ver essas mesmas imagens.

Sabe o que me deixa intrigada? É curioso como, mesmo essas imagens, geradas pela IA, tendo vários estilos, as pessoas percebem uma falta de ‘profundidade’ na imagem. 

Ou seria, falta de ‘humanidade’?

Não sei mas acredito que isso possa ser estudado. Muita gente diz que falta ‘alma’ no trabalho. 

Mas… tem acontecido ainda outro fenômeno: muita gente começou a me procurar no Instagram, no privado, pedindo para eu ilustrar para eles, pois eles querem uma ilustração feita por mãos humanas. E não só isso: querem algo original, que eu chamaria de “autoral”. 

O que percebi é que a ilustração tradicional, que é a que faço – com tinta e lápis de cor – está sendo mais valorizada.

E isso não é algo que somente eu estou observando, com os pedidos que recebo, mas também é uma discussão que está acontecendo internacionalmente, como li recentemente na plataforma Reddit.

Voltando um pouco no tempo, quando surgiu a ilustração digital, a qualidade das primeiras eram realmente bem sofríveis. Mas, de uns anos para cá, a ilustração digital alcançou níveis de qualidade excepcional, e isso acabou fazendo com que a procura por ilustração feita com tinta, lápis de cor e aquarela diminuísse. E é um fato que fazer com tinta e lápis de cor demora mais. Além disso, a ilustração digital é mais fácil de ser alterada, o que faz com que muitos clientes prefiram, além de outros fatores de estilo e gosto.

Mas agora, com a chegada da IA, está acontecendo um retorno ao tradicional, às texturas, ao imprevisto da aquarela, às ‘entrelinhas’ que só um humano consegue inserir nas suas ilustrações. 

O que é feito por mãos humanas, que é perceptível sob o que é ilustrado ou escrito, aparentemente, a máquina não conseguiu ainda replicar. 

Entretanto, devemos reconhecer que a IA faz, de fato, imagens espetaculares e, para quem busca algo que somente retrate o que é dito, ela pode ser a solução. 

Mas quem busca algo além, um toque de humor, um ‘easter egg’, uma referência sutil, uma narrativa secundária, um ‘trocadilho visual’, e algo autoral, original, creio que vai continuar querendo ilustrações feitas por pessoas.

A IA veio para ficar, e já há leis sendo feitas para proteger o que é feito por mãos humanas, tanto nos EUA, na Inglaterra e na Dinamarca. Quando estive na Feira de Bologna, no ano passado, o tema do discurso de abertura foi a necessidade de uma lei de direitos autorais para proteger escritores e ilustradores em relação à IA.

E creio que isso seja muito necessário, porque não sabemos como a IA faz para produzir suas imagens.

Afinal, de onde ela tira as referências para produzir? Com certeza, de imagens produzidas por seres humanos, espalhadas pela internet. Já ouvi dizer que até mesmo imagens protegidas por direitos autorais tem sido usadas para treinar IAs. 

A IA é algo admirável, mas outras invenções menos impressionantes também impactaram outras profissões na história do mundo:

  • Quando surgiu a fotografia, com certeza todos os artistas pensaram: acabou a minha profissão. Entretanto, o mercado de materiais artísticos mostra que esse atividade só cresceu. E está estimado em 25 bilhões de dólares para 2025, segundo o site Fortune Business Insights.
  • Quando surgiu o pão industrial, mais barato, houve uma diminuição das padarias artesanais. Porém, atualmente, qual é o mais valorizado? 
  • O café também – olha a febre do café especial, premiado, que é produzido de modo quase artesanal. O café de “garrafa térmica”, é claro, persiste, mas quem pode escolher, quer um café de alta pontuação. E está disposto a pagar mais por isso.

Eu confesso: sou consumidora ávida de café especial e também do pão artesanal. 😉

Além disso, quem não quer algo especial para si próprio? Um queijo artesanal, um sorvete artesanal, um chocolate bean-to-bar, uma roupa sob medida, feita por um alfaiate…

Certamente alguém vai me dizer: mas a Inteligência Artificial tem muitas vantagens em relação aos ilustradores: velocidade – não tem como competir – além do custo, que é bem baixo. 

Claro que é mais barata, afinal, IA não tem boletos para pagar, né? Trabalha praticamente de graça, não tira férias nem dorme.

Mas temos que considerar que, de fato, não ‘cria’ nada e pode até ferir direitos autorais, pois é treinada com o que os humanos já fizeram ou tem feito. 

Se fosse um ser humano, provavelmente sofreria uma ação por plágio. Mas, do modo como está, quem seria o responsável?

Enfim, embora a crença seja que os ilustradores sejam praticamente ‘desenhistas’, o fato é que  ilustradores não são ‘meros executores de imagens’. 

O ilustrador é um ‘contador de histórias’, e o faz ‘visualmente’. 

Ele conta experiências vividas por seres humanos, transmite mensagens, ensina, emociona, faz rir e conecta, pois o ser humano se conecta e empatiza com pessoas. 

São as pessoas que vivem as histórias, e são pessoas – seres humanos – os protagonistas dessas histórias.

E o que acho – minha opinião – que vai acontecer com os ilustradores?

  1. Aqueles que produzem ilustrações para bancos de imagem podem sofrer mais com a chegada da IA. Isso porque são imagens mais genéricas, e que vários estilos podem ser utilizados. Se um cliente pede uma imagem de uma criança, por exemplo, sem contexto, várias ilustrações dos bancos de imagens, ou geradas por IA, podem satisfazer esse necessidade. Na verdade, os bancos de imagens já estão com uma boa porcentagem de imagens feitas por IA. 
  1. Ilustradores que fazem imagens hiperrealistas. Artistas excepcionais, super talentosos, podem sofrer com a chegada da IA, já que esse é um tipo de ilustração mais fáci de ser copiado pela própria. 
  1. Ilustradores que fazem imagens sem um estilo próprio, autêntico ou original, sem narrativa, contexto, podem, sim, perder espaço para a IA. Na verdade, provavelmente já perderam clientes, infelizmente.
  1. Ilustradores digitais e tradicionais, que tem um trabalho com estilo, com qualidade, que criam soluções para seus clientes, provavelmente serão mais valorizados, e terão mais demanda.
  1. Ilustradores com técnicas tradicionais, de qualidade artística, estilo próprio e autoral, com storytelling, texturas, e até mesmo imperfeições, mas que também dominam a parte técnica e comercial da profissão, provavelmente terão maior demanda do seu trabalho. 
  1. E, por último, mas não menos relevante, também tem a questão de gosto: alguns gostam de um estilo, e outros de outro. Então, acho que haverá mercado para vários estilos, entre eles, os estilos que a IA não conseguir copiar tão bem. 

Respondendo à pergunta da ilustradora que entrou em contato comigo: eu acho que, infelizmente, parte dos ilustradores que existem serão substituídos pela IA. 

Mas aqueles que buscarem se desenvolver, tiverem um estilo próprio, identificável, contarem histórias visualmente que suscitem emoções, reflexão e empatia por parte dos leitores, esses vão permanecer, e serão ainda mais valorizados.

O que é preciso buscar: não ser igual a todo mundo, se destacar, se aprimorar, aprender as nuances do mercado – seja a parte artística, editorial, bem como comercial –  e focar naquilo que você tem de único, que é a autenticidade, a empatia e a interpretação subjetiva de uma experiência humana, que uma máquina não consegue entender.

E você, o que acha?

Uma ilustrada semana!