
A Perspectiva em desenho costuma assustar muita gente. O nome mesmo – perspectiva – já parece difícil de falar.
Mas, uma coisa que sempre falo é que a perspectiva é um auxílio para o ilustrador, não um obstáculo.
O objetivo desse texto é ‘mudar sua perspectiva sobre a perspectiva’. Nossa, amei esse trocadilho (minha filha iria revirar os olhos com essa minha piadinha). Rsrs!
Em primeiro lugar, não devemos usar a perspectiva como arquitetos. A ilustração infantil não precisa ser perfeitinha, retinha e observando todos os ângulos. O tortinho dá um certo charme.
Muita gente ensina tudo ao mesmo tempo:
- horizonte
- fuga
- medição
- escala
- cilindro
- rotação
- escorço
A gente fica travado antes mesmo de desenhar a primeira janela. Até eu, que já ilustro há um bom tempo, entro em pânico ao ver uma aula assim.
Mas para nós, ilustradores, a perspectiva é mais artística.
A perspectiva, em ilustração, serve para criar espaço, mudar a composição, contar uma história sob um outro ponto de vista. Podemos simplificar. E quando falo em simplificar, não tô falando de empobrecer. Você pode adicionar outros elementos na sua ilustração, que na verdade podem ser muito mais importantes que estar tudo aritmeticamente perfeito.
Ontem dei uma aula ao vivo de perspectiva de 2 pontos para meus alunos da mentoria IlustraBook Lab.
Para o exercício, peguei uma imagem real de uma cidade. Por quê?
Porque muitas vezes temos que ambientar histórias e muitas delas se passam em lugares que existem. Tem até séries de livros que se passam em lugares turísticos, por exemplo.
Então, achei que seria um exercício interessante e ao mesmo tempo desafiador para meus alunos.
Peguei uma imagem de Amsterdã, que eu tinha visto no meu papel de parede do computador, e que tinha exatamente essa perspectiva de 2 pontos. Eu guardei há um tempo e – voilá – apareceu a oportunidade de usar ela numa aula. Então, mostrei aos meus alunos como eu faço, simplificando os prédios e, depois, adicionando uma ponte e uma personagem para contextualizar a história.
Perspectiva, de fato, quando você precisa que fique perfeita, como num projeto arquitetônico, pode ser difícil…Mas para nós, ilustradores de livros infantis, noções básicas de perspectiva podem auxiliar muito nas suas composições.
Lembre: você não precisa deixar o desenho “perfeito”.
Ilustração infantil não é desenho realista. Não tem que ser do jeito que alguém determina que tem que ser. Se fosse assim, não existiriam os estilos de cada ilustrador. E é isso, essa variedade, que dá graça aos infinitos livros que tem nas livrarias.
Já imaginou que chato seria entrar numa livraria e ser tudo igual? Um prédio tortinho tem o seu charme.
Na aula de ontem, quando comecei a fazer as linhas, estavam todos concentrados. Estava tão silencioso que até olhei para o computador para ver se tinha algum aluno ainda. Pensei que tinham fugido. Rsrs!!!
Mas depois que mostrei como eu construo uma cena, muitos falaram que gostaram e uma aluna até falou, admirada: incrível como você consegue transformar o difícil em fácil. (Não preciso dizer que amei o comentário, né?)
E sabe o que mais foi legal: não foi o fato de termos feito uma cena com perspectiva, mas o conjunto da obra, mostrando que acrescentando detalhes (mesmo fora das linhas e ângulos), que criou uma cena com emoção e storytelling.
E a aula acabou ficando muito mais leve do que muita gente imagina quando pensa em perspectiva.
Não porque fizemos arquitetura complexa. Mas porque eles perceberam que perspectiva não é uma “prisão” técnica. Ela é ferramenta de narrativa visual/storytelling.
E o que é essa narrativa visual, que eu falo tanto?
Simples: é você contar uma história desenhando.
Muita gente acha que perspectiva na ilustração tem que ser super reta, usar muito a régua e ficar impecável. Mas a verdade é que os leitores querem algo que transmita emoção para eles.
É mais importante o que sua ilustração transmite do que o desenho estar matematicamente perfeito. Ilustrador não desenha cálculo. Ilustrador desenha atmosfera.
Embora impressione, a perspectiva não serve para “impressionar”. Ela serve para:
- criar profundidade
- guiar o olhar
- abrir espaço para a cena respirar
- inserir e contextualizar o personagem dentro de um mundo.
Mesmo uma perspectiva simples já transforma o desenho.
E não precisa desenhar tudo. Dois ou três prédios já sugerem uma cidade inteira. O cérebro completa o resto. A gente sugere o suficiente e deixa a ilustração respirar.
Outra coisa é que a perspectiva também conta história.
Você pode:
- deixar o personagem pequeno para mostrar solidão
- usar prédios altos para criar grandiosidade ou uma situação dramática
- abrir espaço vazio para transmitir calma
- conduzir o olhar até um detalhe importante
Ou seja: perspectiva não é só técnica. É profundidade, atmosfera/clima e até emoção.
Porque o objetivo não é construir um prédio real, mas uma sensação.
Na ilustração, a gente pode simplificar, deformar, exagerar (eu gosto desse aspecto, tipo fazer um braço mais longo ao fazer a mãe abraçando os filhos), suavizar, quebrar regras consciente e intencionalmente, desde que a imagem continue funcionando visualmente, que tenha composição e narrativa.
E sinceramente? Muitas ilustrações lindas têm pequenas “imperfeições” de perspectiva, mas possuem emoção, narrativa e ritmo visual. E isso, na minha opinião, e de editores que eu conheço, acaba pesando mais.
Eu até brinquei na aula: se fôssemos arquitetos, provavelmente seríamos demitidos por não fazer tudo perfeito. Mas como somos ilustradores, quanto mais emoção, ação e até transformação sua arte trouxer, melhor, mesmo que matematicamente esteja imperfeita.
Meu conselho final: experimente, não tenha medo de errar, desenhe mesmo que não esteja tudo retinho, e isso vai fazer você evoluir muito mais rápido.
Para finalizar, pense na perspectiva não como um “monstro técnico”, mas como uma ferramenta criativa. Mude a sua perspectiva sobre a perspectiva. 🙂



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