O Trabalho Por Trás Da Ilustração

Como falamos no artigo Ilustrador – Compositor e Intérprete Ao Mesmo Tempo, entendemos que um ilustrador faz um composição artística quando produz uma ilustração.

Uma ilustração não é somente um desenho. Por trás de uma composição, há muito trabalho envolvido. Trabalho que o cliente – e a maioria das pessoas – não vê e às vezes nem sabe que existe.

Para começar, um ilustrador é que transmite, visualmente, uma ideia ou um conceito. Quando o cliente solicita uma ilustração, é necessário entender qual a mensagem que ele pretende transmitir aos seus leitores.

Você pode imaginar a complexidade em tentar produzir, visualmente, uma ideia que está na cabeça de outra pessoa? Transformar em visível aquilo que é abstrato, e nem é você quem está pensando?

Mais que ilustradores, somos criadores de imagens. Por mais que o cliente passe um briefing do que deseja, é o ilustrador que vai determinar a forma, as cores e o estilo de um personagem, por exemplo.

Vários aspectos fazem parte da concepção de uma ilustração. Precisamos entender o conceito que o cliente quer passar, captar o que está nas entrelinhas, fazer um interpretação do texto ou da ideia. 

Além disso, a obra final precisa ser harmônica, transmitir não somente a mensagem, mas também emoções e sensações. É necessário analisar os aspectos da composição, os melhores pontos de vista para aquele determinado trecho da narrativa, o sentido de leitura que vai orientar o leitor, entre outras técnicas de composição que estudamos para que o resultado final da ilustração seja agradável aos olhos de nossos pequenos leitores.

Todo esse trabalho criativo nem sempre é considerado, e muitas vezes as pessoas nem tem ideia de que existe. E isso leva tempo.

Ilustradores são ‘tradutores’ e ‘intérpretes’ visuais.

Ingrid Osternack

Para produzir uma ilustração, há que se pesquisar, pois não podemos desenhar algo que não conhecemos. Ainda que existam mundos imaginários, e possamos explorar nosso lado criativo nessas horas, há muitas histórias que se passam em lugares conhecidos. E mesmo os mundos imaginários tem inspiração em cenários reais.  O tipo de cenário de um livro que se passa na Escandinávia é completamente diferente de um cenário no Caribe. E isso tem que ser levado em consideração. Por mais que tenhamos nossa “licença artística”, dependendo do trabalho que você faz, às vezes o cliente quer algo que seja verdadeiro. Mesmo pesquisando muito, já fiz ilustração com os protagonistas numa casa, quando eles tinham habitado numa tenda. Isso não dizia no texto, e mesmo ao pesquisar, esse detalhe escapou. O autor fez o comentário e modifiquei, uma vez que era um livro infantil baseado em uma história real.

Eu havia pesquisado bastante, e esse acontecimento me fez pesquisar ainda mais sobre os assuntos que costumo ilustrar. Isso demanda tempo e faz parte do processo de construção de uma ilustração. Uma vez publicado o livro, se erramos algo, fica marcado praticamente para sempre.

Outro aspecto são os rascunhos para concepção dos personagens. É preciso imaginar como cada personagem é e como ele se vestiria, e se comportaria tendo determinada personalidade.

É óbvio que algumas pessoas pensam que os computadores fazem tudo. Minhas ilustrações não são digitais, mas alguns clientes imaginam que são os softwares que fazem todo o trabalho. Que é rápido e não requer nenhuma habilidade. Mas tanto as tintas quantos os softwares são apenas instrumentos, assim como também é um fogão para um chef de cozinha. Uma pessoa com habilidade e criatividade na cozinha faz pratos maravilhosos, enquanto outra pessoa, mesmo que tenha um fogão mais novo, com mais recursos e mais tecnologia, pode vir a não fazer sequer um ovo cozido.

Também é assim com o ilustrador: não basta ter todos os instrumentos, se faltam ideias, técnicas, habilidades, criatividade, inovação e até mesmo vontade. Sim, diria que ter vontade é 50% do trabalho. Porque para começar, a gente tem que ter vontade de fazer. Meu irmão costuma usar a frase: “Quem quer, arruma um jeito, quem não quer, arruma uma desculpa”. Muitas vezes, e me incluo nisso, não realizamos o que queremos porque ficamos protelando, dizendo que não temos tempo, que não é a melhor hora, que não temos recursos, que não sabemos nem por onde começar. Quantas vezes já usei essas desculpas…

Li há alguns dias que, se sonhamos acordados com alguma coisa, só o fato de imaginar já deixa a gente feliz. E é por isso que não tomamos atitudes diante do que queremos fazer. Não sei, de fato, se é assim, mas explicaria a razão da gente procrastinar e esperar o momento certo pra agir em favor de nossa realização profissional.

Mas voltando ao nosso tema, ser ilustrador requer muito mais que saber unir linhas e formas. É preciso ter noções de desenho, conhecer técnicas, materiais adequados, conhecer algumas regras de composição, e até mesmo definir o que se quer. Embora eu use o computador, tenha uma mesa digitalizadora e softwares para desenho, gosto de usar materiais artísticos para fazer minhas ilustrações. Isso acontece porque eu optei por isso e decidi que esse seria o meu jeito de fazer ilustrações. Faz parte do meu estilo. Não faço isso porque não sei usar os softwares, mas porque quero exercer a minha profissão utilizando os materiais que me agradam.

Algumas características que são valorizadas num ilustrador:

. compreender as necessidades e ideias do cliente

. entender sobre o nicho ou público que será atingido pelo mensagem da ilustração

. desenvolver ideias visuais para acompanhar a narrativa, que atendam às expectativas do cliente (editor ou autor)

. ter habilidades de desenho e da técnica escolhida para execução do trabalho

. cumprir metas e prazos

. entregar o trabalho conforme a solicitação do cliente (resolução, tipo de arquivo, etc)

Além disso, é imprescindível ter noções de administração, contabilidade, direito e marketing.

Antigamente, o ilustrador enviava os originais para a editora, que fazia todo o restante. Atualmente, o trabalho do ilustrador se expandiu de tal maneira, que às vezes enviamos tudo pronto, ajudamos a divulgar o livro, e a gerar a expectativa antes mesmo do lançamento da obra.

Concluindo, ser ilustrador não é apenas ser um desenhista. Desenhar é, sim, muito importante, mas é apenas uma parte. É necessário saber contar ideias visualmente, ser curioso, aprender mais sobre cultura, querer ter mais conhecimento, aprimorar-se sempre, desenvolver seu estilo e, principalmente, ter o desejo de criar. 🙂

Ilustrador – Compositor e Intérprete ao Mesmo Tempo

Existe um ditado em inglês que diz:

Comparison is the thief of joy. (Comparação é o ladrão da alegria)

O significado dessa frase é que, se você comparar seu trabalho com o de outros artistas, certamente ficará desmotivado. Mas será isso mesmo?

Um fato ao qual temos que nos acostumar é que – SEMPRE – vai ter alguém melhor e alguém pior do que nós. Só que aí eu pergunto: quem define o que é melhor ou pior?

Todos temos gostos diferentes e, o que uma pessoa gosta pode ser totalmente diferente do que outra gosta. Então, dizer que algo é melhor ou pior depende muito de quem avalia. Cada um tem seu gosto e vejo que, aquilo que uma pessoa acha lindo, outra acha muito feio. Uma vez estava com uma colega num museu em Veneza, numa visita da minha turma da Accademia – onde estudei – e eu estava admirando um quadro impressionista. Acho linda a combinação de cores, a alegria que transmite… E ela olhou e disse: “Acho muito sem graça esses quadros impressionistas. Quem viu um, já viu todos”. Enfim, a beleza está nos olhos do expectador.

Voltando à comparação, vejo que há vantagens e desvantagens em comparar seu trabalho com o de outras pessoas.

As desvantagens são que você pode achar que o seu trabalho não é tão bom e acabar desanimando, deixando de desenhar e consequentemente, de progredir. Afinal, só praticando é que vamos melhorar nosso trabalho. Entretanto, somente prática não basta. Se assim fosse, todos os cozinheiros do dia a dia já seriam chefs premiados, e todos os motoristas já teriam ganho a Fórmula 1. É também preciso aprender técnicas, aprender a ver, ser humilde e reconhecer que, por mais que alguém esteja no topo, daqui a pouco esse lugar será ocupado por outro. Não é assim todo ano? Quase todas as áreas tem o seu prêmio anual e alguém é considerado o melhor do ano (jogadores de futebol, chefs, ilustradores…)

Quando você observa e analisa ilustrações de outros artistas, pode aprender muita coisa. Não é à toa que pintores franceses – hoje famosos – ficavam no Louvre copiando quadros dos grandes mestres. Vale ressaltar que não estou falando de plágio. O plágio é crime e deve ser tratado como tal.

Quando alguém começa a aprender a tocar um instrumento, não fica inventando. As composições que toca foram feitas por outras pessoas. Se os músicos aprendem tocando algo que foi feito por outra pessoa, os artistas aprendizes costumam ser mal falados quando tentam desenhar algo que inspirado em outro artista.

Acho que é porque, quando você toca uma música, ela desvanece imediatamente. Mas quando desenha, fica no papel praticamente uma prova de que você desenhou algo inspirado em outro artista. Em ‘artists statements’ – declarações de artistas – é praticamente um requisito escrever quais outros artistas influenciaram o seu trabalho.

A verdade é que, mesmo inconscientemente, vários artistas incorporam ao seu estilo o que vêem e lhes agrada em outros trabalhos. Os indivíduos são fruto do seu meio, portanto, eles também receberam influências de outras pessoas. Se formos observar artistas conforme sua nacionalidade, fica evidente a influência de cada cultura na sua obra. Isso não quer dizer que o artista não inventa nada, mas ele pega trechos de influências que recebeu e cria algo “novo”. É como uma receita: você pode inventar o modo de fazer, mas quem criou os ingredientes (batata, cenoura, carne, etc) foi o Criador. E mesmo a manteiga, invenção humana, utiliza a criação de outra Pessoa – o leite – para que seja feita. Eu aconselho, porém, que evite copiar, mas tente produzir algo que seja somente seu.

Então, na verdade, somos todos criadores interligados. Criamos com materiais criados por outras pessoas, técnicas desenvolvidas por outras pessoas, e com base no que aprendemos com (ou de) outras pessoas. Fica mais que evidente que isso quer dizer que dependemos uns dos outros, não só para viver em sociedade, mas para progredirmos. E é por isso que temos também a obrigação, a meu ver, de ensinar o que aprendemos. Se o que sabemos hoje aprendemos com alguém, também não devemos reter o conhecimento que temos. Mesmo quem acha que sabe pouco tem alguém a ensinar.

Estamos numa fase onde as pessoas estão procurando não só um trabalho pra sobreviver, mas algo que lhes dê satisfação, que tenha propósito. E estamos no começo de uma nova era, onde você não precisa nem sair de casa para aprender.

Pensando em tudo isso que discutimos, será que é por isso que as pessoas tem tanto medo de começar sua carreira como artista? Será que tem medo de serem consideradas meras cópias de outros? Será que estão aguardando o “momento certo” para começar? A vida vai passando, e quando a gente vê, achamos que não dá mais tempo. Mas não precisa ser assim (veja essa postagem).

Sobre aprender observando ilustrações de outros artistas, considero um assunto polêmico, pois depende de cada pessoa que está aprendendo, e a linha entre inspiração e plágio pode ser muito sutil, ainda mais no mundo atual, onde o certo e o errado já se tornaram relativos…

Enfim, pra finalizar quero deixar uma frase que meu marido me disse, ao discutirmos sobre tudo isso que falamos acima:

Um ilustrador é o compositor e o intérprete de uma obra, simultaneamente.

(Frase de Alexandre Barros Neves, designer de produto).

O ilustrador compõe e materializa a sua ideia, praticamente ao mesmo tempo. Enquanto desenha, está compondo e colocando no papel a sua ideia, a sua obra. E diferentemente do que dizem as pessoas, que ficar desenhando pode ser fácil, é preciso tempo, esforço e dedicação para poder transformar ideias em imagens. E sobre isso, tenho mais a falar, mas fica para a semana que vem. 😉

Bom final de semana (em casa)!

Materiais que Utilizo – Papéis

Todo desenhista ou artista fica fascinado pelos tipos de papel que existem. Tipos de superfície, gramatura, material com o qual é feito, enfim, existe uma infinidade de papéis para pintura, e vou falar sobre os que eu uso e sobre os que eu encontro aqui no Brasil.

Embora eu utilize mais acrílico para minhas composições, geralmente compro papel para aquarela. Por quê?

Porque o papel para aquarela é especialmente preparado para receber grande quantidade de água ou tinta bem molhada.

Você já deve ter notado que, quando pinta com tinta sobre um papel muito fino, ele fica todo ondulado. Veja a foto:

Isso geralmente acontece porque a gramatura desse papel não é adequada para receber essa quantidade de água.

Mas o que é essa tal de gramatura?

Os tipos de papel são classificados segundo o seu peso por metro quadrado. Então, quando você for comprar um papel, ou mandar imprimir algo na gráfica, você precisa definir o tipo de papel que vai querer segundo o acabamento da superfície e a gramatura (peso/m2).

Os papéis, em geral, são diferenciados pela gramatura. 120g/m2, 180 g/m2, 300 g/m2, 400 g/m2 e até 640g/m2.

Para desenho, recomenda-se o uso de papéis com 160 ou 180 g/m2. Você vai ver isso na face do bloco ou na própria embalagem. Veja:

Para aquarela, o papel tem que ter no mínimo 300 g/m2. De fato, eu já utilizei papel dessa gramatura e, mesmo assim, o trabalho ficou ondulado. A cidade onde moro é muito úmida, e isso afeta também. Mas não é só isso: as marcas também desempenham papel importante nisso.

Quanto às superfícies, há aqueles que tem textura fina, textura acetinada, textura rugosa… tem até textura ‘flocos de neve’. Depende do artista a escolha da textura e também do seu objetivo final. Eu gosto tanto de papéis lisos quanto com textura, mas especialmente desse papel (veja abaixo) que tem uma textura em que as tramas parecem quadriculadas. Esse, na verdade, é um papel 300g/m2, mas para técnicas mistas, inclusive acrílico. Não é um papel específico para aquarela. Mas é um papel maravilhoso!

Existem papéis também feitos de algodão, com as bordas não retilíneas, e são considerados os melhores para aquarela. Comprei alguns há alguns anos e confesso que tenho até pena de usar. Rsrs…

Enfim, existem inúmeros tipos e marcas de papel, e eu os considero, sem nem mesmo terem sido tocados, como verdadeiras obras de arte. De fato, alguns papéis são feitos de tal modo e com tal cuidado que parecem obras de artesão.

Porém, aqui no Brasil nossas escolhas são limitadas, e não somente devido à falta de todos esses tipos de papel. A verdade é que, mesmo que a gente encontre tais papéis especiais, o custo deles é proibitivo. Há folhas de papel que custam muito e não são comercialmente viáveis para o ilustrador.

Eu uso, quase sempre, papel A3. Prefiro trabalhar com as ilustrações sempre um pouco maiores do que serão impresas. No momento, estou usando o papel para aquarela da Daler Rowney, 300g/m2, porque comprei dois blocos econômicos e tenho ainda bastante folhas. Ele é prensado a frio, a textura da superfície é mais fina e sem ácido (não amarela com o tempo).

Quando eu não encontro esse, costumo comprar o que tem melhor custo/benefício. Geralmente o Canson 300g/m2, que costuma ter o melhor preço por unidade. É preciso verificar na embalagem não só a gramatura, como também a quantidade de folhas que vem e as dimensões.

Importante: esses papéis artísticos são caros. Então, reserve para suas ilustrações finais. Se for fazer esboços, utilize papéis comuns e só depois passe o seu rascunho para os papéis especiais.

Abaixo algumas sugestões de papel que encontro no momento, com melhor custo x benefício.

Para aquarela:

Para técnicas mistas, acrílico, colagem, pastel, etc:

Bom final de semana!

Materiais que Utilizo – Pincéis

Continuando a falar sobre os materiais que eu uso em minhas ilustrações, hoje vou falar sobre pincéis.

Pincéis são instrumentos artísticos relativamente caros. E como o acrílico é uma tinta que desgasta, eu costumo utilizar pincéis mais baratos. Os que mais utilizo são as marcas nacionais. Além disso, tendo experimentado alguns que comprei fora do Brasil, vejo que a qualidade deles é ótima. Alguns pincéis que comprei nos Eua são maravilhosos, mas foram muito caros. Eu acabo poupando esses pincéis e, como uso bastante, compro dos mais baratinhos mesmo.

Dependendo do efeito que quero obter, uso vários tipos. Vou falar um pouco sobre cada um deles.

Pincéis Chatos: Uso de vários tamanhos, para espalhar a tinta, dar efeitos e até para misturar cores, às vezes.

Abaixo algumas imagens dos pincéis que uso. (Eu inseri links nas imagens, para você poder saber o preço na loja online onde eu costumo comprar e facilitar para encontrar exatamente o que estou usando.

Os pincéis abaixo são de cerdas mais macias. Gosto de usar esse tipo quando quero fazer superfícies lisas, sem texturas e com poucas marcas de cerdas.

Gostei demais desse pincel abaixo. Desliza bem a tinta e permite um bom controle que facilita até chegar aos cantinho sem precisar trocar por um pincel menor. Ótimo custo x benefício.

Esse pincel também me agradou bastante.

Mais uma opção para você testar e comparar, podendo assim decidir qual tipo mais gosta.

Pincéis Redondos: Uso somente dos mais finos, para fazer detalhes e dar acabamento. Gosto de cerdas sintéticas macias e cuida bastante deles, pois estragam com facilidade se forem deixados na água. Uso tanto para fine arts como para artesanato.

Todos esses pincéis, e alguns outros que já estão em estado ‘vegetativo’ aqui em meu ateliê, são utilizados em minhas ilustrações. Há um que tenho e gosto muito também, que é um verde da Tigre, mas que já saiu de linha há muitos anos. Na época, eu comprei uns 20 numa oferta e tenho deles até hoje. São ótimos para efeitos, chatos e de cerdas sintéticas. Se eu encontrar em algum lugar, escrevo aqui. Espero que tenha sido útil a minha explicação e eu tenha respondido ao que desejam saber. Se tiver alguma pergunta sobre o assunto, basta me escrever. :-*

MATERIAIS QUE UTILIZO – TINTAS

Respondendo a perguntas que me fazem, pelo Facebook e email, resolvi fazer essa postagem para mostrar alguns materiais que utilizo na minhas ilustrações. Vamos começar pelas tintas:

A tinta que eu mais utilizo é a a acrílica. Uma das que mais gosto é a tinta Maimeri. Essa marca eu comprei quando tive a oportunidade de morar fora do Brasil, e é um pouco difícil encontrar por aqui. Mas como os potinhos são grandes, e a durabilidade dela é excelente, eu raramente tenho que comprar novas. Tenho algumas cores que utilizo há mais de 10 anos e a qualidade continua a mesma.

Porém, há cores que essa marca não tem, ou então a tonalidade não me agrada tanto. Por isso, uso muitas cores de outras marcas também. Vou falar um pouco mais sobre cada uma delas. Se desejar saber o preço ou adquirir algum material, eu coloquei um link nas imagens. Basta clicar sobre elas.

Le Franc & Bourgeois

Uso bastante essa marca, porque além de fluida, cobre bem também. Não deixa uma película muito plástica, o que facilita para usar o lápis por cima. Tenho muitas bisnagas desse tipo. Gosto bastante da consistência dessas tintas. As cores que mais utilizo dessa marca são:

Terra de Siena Queimada

Branco de Titânio

Rosa Ocre (No meu tubinho, que é mais antigo, está escrito Cor da pele). Com essa cor, eu vario as tonalidades adicionando outros matizes.

Liquitex

Essa tinta é uma das minhas preferidas também. 🙂 Pode notar que, em algumas fotos minhas, às vezes aparece um tubo grande bem amassadinho. É o tubo do Branco de Titânio que eu uso dessa marca. O branco, dependendo do efeito que quero dar, uso de marcas diferentes. O da Maimeri é mais fluido e o da Liquitex é bem encorpado.

Essa tinta Liquitex é ótima e fico muito feliz em poder comprar facilmente aqui em nosso país. Você encontra acrílico dessa marca em duas séries: Heavy Body e Basics.

LIQUITEX BASICS

A Basics é mais fluida e cobre menos, ou seja, tem que pintar mais camadas. A superfície fica mais plástica, mas tem custo menor. Boa e barata, melhor para quem está começando.

LIQUITEX HEAVY BODY

A Tinta Liquitex Heavy Body tem mais ‘corpo’, como já diz o nome, ou seja, é mais encorpada. Com pouca tinta, cobre bem a superfície e permite que se desenhe com o lápis de cor sobre ela. Boa para fazer detalhes com texturas também. Eu gosto muito da cor Cinza de Payne e é uma cor que aparece em quase todas as minhas ilustrações. Raramente (quase nunca) utilizo o preto. Eu recomendo mais a Heavy Body, pois acho que a qualidade compensa a diferença de preço em relação à Basics.

Também uso muito o Terra de Siena Natural…

Terra de Sombra Queimada…

Outras cores que utilizo bastante também são o azul ciano, o amarelo ocre e o terra de Siena queimada. Atualmente eu tenho muitas tintas e não tenho testado novas. Mas se você pretende começar agora e quer uma tinta de boa qualidade sem gastar muito, a marca Talens é muito bem conceituada fora do Brasil. Caso você queira testar antes se o acrílico é a sua praia e quer algo bom mas sem gastar muito, sugiro adquirir um kit de tinta acrílica com várias cores, como o da foto abaixo.

Em outra postagem, vou falar sobre os pincéis que mais utilizo. Até mais!

Quem o Vento Trouxe

“Quem o Vento Trouxe” é o nome do livro que estou trabalhando no momento. Trata-se de uma história baseada em fatos reais. No ano passado, eu já havia feito 3 ilustrações para esse livro e agora estou dando continuidade.

Eu estava em dúvida quanto a dois esboços que fiz para uma parte do texto. Como não consegui chegar a uma conclusão sobre qual seria a melhor opção, acabei finalizando os dois. Abaixo os esboços e uma das ilustrações finalizada.

Home Office – Trabalhando em Casa

Já faz muitos anos que eu trabalho como ilustradora e, como muitos freelancers, tenho o meu studio em casa. Como já comentei aqui, no início só tinha uma mesa e alguns materiais. Com o tempo fui adquirindo mais materiais e móveis. E hoje tenho meu próprio espaço em minha casa.

Quando eu comecei, pesquisei muito em como fazer para conciliar o trabalho com a rotina de mãe e dona de casa. Não era fácil. Na época, home office era algo impensável e havia apenas alguns artigos sobre o assunto. Li blogs e livros sobre essa modalidade mas nenhum parecia se encaixar com a minha realidade. Minha filha era bebê e era bem complicado para gerenciar tudo. E no momento, com a quarentena, tenho ouvido amigas comentando a dificuldade de não conseguir conciliar trabalho, casa e família. É, de fato, uma loucura.

Os artigos que eu lia eram sempre sobre pessoas que tinham empregada, babá e ajuda das avós. Totalmente diferente de minha realidade. Minha mãe, embora se disponibilizasse, não tinha condições de me ajudar. Eu não tinha nem empregada, nem babá, como a maioria das famílias. E minha sogra mora em outro estado. Enfim, era tudo comigo mesmo. Eu que fazia as ilustrações, que cuidava das crianças, comida, roupa e casa. (Na verdade, continua assim, só que as crianças já estão maiores).

Embora o propósito de meu blog não seja tratar de home office, acredito que essa seja a realidade de muitos ilustradores, principalmente ilustradoras. Sei que alguns ilustradores até tem um espaço fora de casa, mas nos últimos anos, vários colegas decidiram, pelas mais variadas razões, que era mais conveniente ter seu studio em casa.

Por isso, vou dar algumas dicas que eu aprendi por experiência própria. Não foi fácil. Quando minha filha era bebê, minha casa era uma bagunça. Vejo fotos dela pequena e fico horrorizada com os cenários. Rsrs… Na verdade, com a pandemia, parece que o trabalho triplicou. Não é verdade?

Meu objetivo aqui não é dizer que ‘sou um gênio’ e faço tudo certinho e organizado. Longe disso. Basta perguntar aos meus filhos. 🙂 Mas acredito que a minha experiência pode ajudar a quem está lidando com uma nova realidade de ter filhos em casa o dia todo, cozinhar, cuidar da casa e ilustrar. Já faz uns 15 anos que a minha rotina é assim e acredito que eu possa colaborar com algumas dicas.

Estar em casa com filhos o dia todo é bem desafiador. Ou você deixa eles o dia todo vendo tv, jogando vídeo-games, ou envolve eles no seu trabalho. Eles querem atenção e é bem complicado conseguir trabalhar. Por isso, muitas vezes fui dormir de madrugada, a fim de terminar um projeto. Quanto aos filhos, são bênção e temos que curtir bastante, pois crescem rápido. Por outro lado, eles também tem que entender que você tem horários. Equilíbrio é importante nesses momentos, pois eles merecem atenção. Já joguei (e ainda jogo) vídeo games, mas eles tem que entender que não são o centro de tudo.

Mas vamos às dicas. O que digo aqui são apenas sugestões e você não precisa seguir nenhuma. Cada um tem a sua realidade.

1: Diga não

Com os anos, embora vários trabalhos tenham surgido, foi necessário declinar de alguns, porque não daria conta de fazer tudo. Preferi manter os meus objetivos focando em projetos que me desafiassem, ensinassem alguma coisa, e não aceitar tudo o que surgisse, pois ficaria sobrecarregada. Já imaginou aceitar algo e não conseguir entregar no prazo? Portanto, se um trabalho fosse tomar muito do meu tempo, preferia não aceitar ou sugeria outras condições. Perdi trabalhos? Sim, perdi vários. Às vezes penso se não deveria ter aceitado, pois hoje teria um portfólio maior de livros publicados, mais contatos com editores, e certamente o pagamento teria ajudado muito. Porém, achei que valia a pena ter equilíbrio entre o lado pessoal e profissional.

2: Considere se vale a pena qualquer trabalho que aparecer

Prefira trabalhos que ajudem você a se desenvolver. Sempre vão aparecer trabalhos gratuitos ou que paguem pouco. Use a sua intuição para determinar o que deseja ou não aceitar. O primeiro NÃO é mais difícil, mas depois de um tempo você começa a perceber quais projetos realmente valerão a pena ou não. Às vezes surgem propostas que, apesar de você não ganhar nada no início, podem vir a ser interessantes no futuro, seja por motivos financeiros a longo prazo ou porque podem vir a dar projeção. O duro é determinar o que vale a pena. Nem toda promessa de projeção realmente acontece. Às vezes você aposta num projeto e não dá em nada. Com o tempo você vai percebendo as possibilidades. Mas a princípio evite aceitar. Valorize-se.

3: Faça uma lista de tarefas dividida por áreas: trabalho, diferentes áreas do trabalho, mídias sociais, casa, filhos, comida, roupa, … Se você é quem cuida da casa, filhos e comida, vale a pena fazer um planejamento. É um tempo que você gasta pra se planejar, mas aumenta a produtividade. Verifique se você tem mesmo que fazer tudo o que está na lista: pode deletar alguma coisa, substituir, delegar, deixar para outro dia, mês, ano…

4: Descubra os melhores horários para trabalhar. Quando meus filhos estão na aula, aproveito para o que precisa de mais concentração. Deixo para ler e-mails, whatsapp, trabalhar em atividades relacionadas a ilustração, mas que não precisam de foco, para quando tenho que dar atenção a eles. Peço opinião a meus filhos e marido sobre o trabalho que estou fazendo. Peço a minha filha que me dê dicas de como compor uma ilustração, que desenhe comigo, dou tarefas. Algumas ela aprecia, outras não, mas algumas vezes eu até faço a ilustração do jeito que ela sugeriu. Veja só o esboço que ela fez pra mim:

Descubra os seus melhores horários e momentos de criatividade: segunda feira para mim é um dos piores dias, pois sempre tem muita coisa para fazer e recuperar. Eu costumo trabalhar melhor quando a casa está em silêncio, então de manhã e no final da noite, o trabalho rende mais. Porém, tenho observado que no final da noite, apesar de trabalhar melhor, me prejudica o sono. Então optei por ir dormir mais cedo e trabalhar pela manhã. Nessa hora também é bom porque meus filhos estão ocupados com suas tarefas (na escola ou então em aulas online durante a pandemia).

Verifique qual o momento em que é mais interrompida e use esse tempo para atender os filhos, e-mails, notificações… enfim, tarefas em que precisa de pouco tempo para realizar. Às vezes, quando minha filha está entendiada, e quer ficar comigo, eu chamo ela para fazer cookies ou um bolo. Já resolvo o problema do lanche e passo algum tempo com ela. E ela também vai aprendendo a fazer algo.

5: Alimentação: eu não faço feijão e arroz todo dia. Dá muito trabalho. Planejo antecipadamente o que penso em fazer durante a semana. Eu cozinho para o almoço e para o jantar todos os dias. Acredito que comer em casa me permite saber o que tem na minha comida e também escolher o que minha família vai ingerir. Tudo mais natural e sem aditivos. Geralmente uma proteína, um carboidrato e uma verdura. Mas dá muito trabalho, então uma vez por semana me dou uma folga e peço uma pizza. Não vou me estender aqui sobre esse assunto, mas se quiserem saber mais, me avisem que eu escrevo.

6: Tarefas de casa: Eu aproveito pequenos momentos pra limpar alguma coisa. Se estou esperando água ferver para fazer um macarrão, já aproveito para limpar a bancada. Vou cozinhando e já lavando e arrumando as coisas. Quando o almoço termina, a cozinha já está metade organizada. Às vezes eu já coloco a comida em potes de vidro e sirvo neles. A maioria dos meus potes tem tampa e se sobrar já fica mais fácil guardar na geladeira.

Divido minhas tarefas pelos dias da semana. Eu costumava ter uma pessoa de vez em quando para me ajudar uma vez por semana, mas já faz algum tempo que não tenho. Minha mãe só teve uma ajudante quando éramos bem pequenos e ela nos acostumou a fazer tudo em casa. E eu faço assim com meus filhos. Eles são responsáveis por várias tarefas. Não gostam de fazer, reclamam bastante. Mas todo mundo tem que fazer coisas que não gosta e eles também tem que aprender, para que saibam como fazer quando tiverem suas próprias casas.

7: Não se distraia com mídias sociais. Eu evito muito as mídias sociais, porque me tomam tempo precioso. Também não vejo TV normalmente. Leio as notícias na internet, assisto esporadicamente a filmes e leio bastante. O que mais assisto ultimamente são desenhos animados (tempo com minha filha). 🙂

8: Dê horas de folga para você: para descansar ou até mesmo repor o trabalho que não conseguiu fazer sozinha. Quando meu filho era pequeno, eu colocava ele na cama às 9h. Depois eu tinha meu tempo de descanso, ler, fazer as unhas…

9. Há muitos anos, estive umas semanas na Inglaterra (meu marido estava lá a trabalho) e observei que os pais colocam as crianças para dormir às 18/18:30h. Perguntei como conseguiam e a dica era jantar cedo. De fato, testei fazer o jantar às 18:30h e às 21h já estávamos todos deitados. Meus filhos já são maiores, mas cada um foi para seu quarto e isso ajudou todos a dormirem melhor. Ninguém foi de fato dormir, mas foi um momento de descanso mental para todos. É estranho jantar tão cedo, mas agora no inverno até que funciona bem.

10. Esqueça o perfeccionismo. Nesse momento em que escrevo, minha mesa está cheia de esboços e meio suja de tinta. Eu queria muito que ela fosse como as mesas dos artistas que vejo na internet, tudo branquinho e sem resquícios de borracha. Mas a vida é assim, e uma casa com um pouco de bagunça, é uma casa com vida. (Mas eu vou arrumar ela, eu prometo!)… Também já perdi a conta de blusas que estão com algum pingo de tinta…

E se a louça ficou um pouco mais de tempo na pia, paciência. Se você estivesse no trabalho, provavelmente só pensaria nela quando voltasse, né? Então, perdoe-se e faça o seu melhor.

Se você tiver alguma dica, compartilhe comigo porque sou fã de qualquer coisa que me ajude a ter mais tempo e produtividade. Abs!