Aos que nos inspiram…


Parabéns àqueles que, por amor, escolheram não só ensinar, mas inspirar seus alunos, mostrar novas possibilidades, novos horizontes e proporcionar transformação, ainda que às vezes os recursos sejam poucos e os obstáculos pareçam intransponíveis!


FELIZ DIA DO(A) PROFESSOR(A)! ❤️❤️❤️

O pior arrependimento é o de não ter feito

Photo by Bich Tran on Pexels.com

Uma das coisas que mais recebo mensagens a respeito ou leio comentários é sobre o fato de que a pessoa tem o sonho de se tornar ilustrador de livros infantis.

Isso é algo que me fascina: o que faz algumas pessoas realizarem os seus sonhos e outras deixarem ele apenas na imaginação?

Se esse é o seu caso, queria fazer algumas perguntas a respeito:

. Como você se sente sobre isso?

. É algo que lhe incomoda?

. O que te impede de realizar esse sonho?

. Quais são os obstáculos?

. Será que você já não desistiu desse sonho? Já desanimou e se conformou que isso não vai mesmo acontecer?

Quando eu era adolescente, li um artigo que falava sobre os maiores arrependimentos das pessoas, narrados por uma enfermeira que atendia idosos no hospital. Eles não se arrependiam do que tinham feito, mesmo que não tivesse dado certo. Eles se arrependiam do que não tinham feito, dos sonhos não realizados, de não ter tentado, de ter tido medo ou vergonha.

Esse texto marcou minha vida, e sigo isso como um lema. Prefiro tentar e falhar do que não tentar e perder uma oportunidade que pode ser única. Afinal, sempre há duas respostas: sim ou não. E o não, se eu não tentar, eu já tenho. Só me resta a outra opção.

Mesmo passando vergonha. Uma vez, enquanto moramos na Suécia, convidados pela escola de minha filha, os pais e os alunos foram patinar no gelo.

A maioria do pais ficou de fora. Mas eu achei que era uma oportunidade de tentar algo que eu sempre tinha tido vontade de fazer. E minha filha queria muito que eu fosse (como negar?). Mas ela era só a desculpa. Eu queria tentar mesmo. 🙂

Não foi nada fácil. Mais dolorido do que parece. Sabe quando você cai e bate a cabeça em algo muito duro? Cai de um jeito que não tem onde nem como se segurar? De um jeito que escorrega e não dá tempo nem de botar os braços para amortecer a queda? Dói muuuito. E eu não caí somente uma vez. Foi realmente vergonhoso. 

Pra piorar, tinha um pai – finlandês – que deslizava como um campeão, fazendo piruetas e se exibindo. Fala sério! Precisava humilhar?

No fim, depois de muitas quedas, dor no pé – as botas apertam bem o pé da gente – deixamos o rinque e uma mãe que estava fora me disse: Parabéns pela coragem.

Os pais que tinham ficado fora tinham se divertido às minhas custas. Afinal, só eu tinha ido patinar sem saber. Os demais, que tinham entrado, já sabiam desde pequenos. Mas pelo menos tentei e não fiquei com aquela sensação de me arrepender de não ter feito.

Mas, voltando ao assunto, se você ainda pensa em realizar o seu sonho, seja se tornar ilustrador ou não, saiba que ele está ainda dentro de você. Temos a mania de achar que um dia, quando tudo for perfeito, aí sim vamos poder nos dedicar ao que desejamos.

Entretanto, nesses últimos meses percebemos que a vida é mais curta do que imaginávamos. Que a longevidade não é uma garantia. Quantos sonhos não realizados foram embora com nossos queridos?

Um sonho mal resolvido pode prejudicar nossa qualidade de vida. Ficamos sempre com aquela sensação de tempo perdido, de que não estamos de fato ‘vivendo’.

Na verdade, a palavra sonho já denota que é algo irreal, que dura uma noite e se esvanece na manhã seguinte.

As palavras e definições que usamos afetam nossas atitudes. Se você fala em ‘sonho’, é algo distante e que parece inatingível. Porém, se você falar em objetivo, aí a coisa já muda de figura.

Objetivo, nada mais é do que um sonho com uma data para acontecer. Com uma ‘deadline’.

E quando temos um objetivo, temos que ser práticos. Temos que elaborar um plano para chegar lá.

Eu sou fã do ‘devagar e sempre’. Melhor fazer devagar e ser constante do que não fazer nada, não começar nunca.

Há um tempo ouvi uma frase: sempre temos um preço a pagar para conseguir algo.

Se temos um objetivo, o preço e o esforço pode vir antes, como por exemplo, estudando, praticando, se esforçando.

Por outro lado, quando não nos esforçamos, e não atingimos nosso objetivo, da mesma forma temos que pagar um preço. O preço do esforço que faremos por não ter alcançado aquele objetivo dentro de um certo período de tempo.

Exemplo: dois estudantes. Um se esforça, estuda, pratica e acaba conseguindo seu certificado. E outro, prefere não estudar, somente se divertir, não segue os ensinamentos e diretrizes que lhe ensinam. E não consegue obter o seu certificado.

Só que ambos vão se tornar adultos e vão precisar trabalhar para viver. Um terá uma competência, que vai lhe proporcionar um trabalho, um rendimento. E o outro terá que trabalhar com alguma outra coisa, que talvez nem goste, e talvez o esforço dele seja até dobrado, porque não adquiriu nenhuma competência ou especialização.

Sempre temos um preço a pagar, seja antes ou depois.

Eu vejo muito disso hoje em dia. Tenho amigas que desistiram não somente do seu sonho, mas não terminaram os estudos.

Vindo de uma família muito simples, morando num bairro popular, notei que a maioria de meus vizinhos não buscaram estudo. Na verdade, das casas que estavam na mesma quadra, somente meus irmãos, meu primo e eu nos formamos. Não foi fácil. Meus irmãos terminaram a faculdade já depois de adultos. Um já era casado e com filhos. Todos começamos a trabalhar muito cedo. Meu irmão mais novo aos 11 anos, meu irmão mais velho aos 14 e eu comecei a fazer estágio ainda no Ensino Médio. Me formei no Magistério, depois em Administração, consegui um emprego fixo, fiz uma pós em Marketing, especialização em Metodologia do Ensino Superior… Depois casei, tive um filho… mas meu ‘sonho’ de trabalhar com ilustração e arte ainda vivia dentro de mim. Prestei dois vestibulares para Belas Artes, e passei em ambos, mas não pude concluir nenhum, pois nos mudamos.

Meu marido tinha sido convidado para trabalhar na Itália. Me preparei, aprendi italiano, busquei faculdades antes mesmo de chegar no país.

Descobri algumas, todas muito longe. Não tinha com quem deixar meu filho pequeno. Foi uma barra conseguir passar no vestibular de lá, conseguir a documentação. Mas não desisti. Foram momentos muito difíceis. A faculdade ficava em outra cidade.

Para quem olha de longe, parece que foi simples. Mas foram meses para estruturar tudo e derrubar os obstáculos. Mas eu pensei: vou me preparando agora, aos poucos, mesmo sendo tudo tão ‘imperfeito’.

Se você cuida de alguém doente, não há momentos em que pode aproveitar para estudar? Se está com filhos pequenos, não há momentos em que eles dormem?

Dizem que a autora do Harry Potter escreveu seus livros em cafés, enquanto seu filho dormia no carrinho.

Nos anos em que fiz Belas Artes, eu ficava quase todas as noites fazendo trabalhos e estudando até as 2h da manhã. Foi um preço que paguei. Mas hoje, com mais de 20 livros ilustrados, vejo que valeu muito a pena.

Essa faculdade era a oportunidade de uma vida – da minha vida. Como eu poderia não tentar?

Enfim, essa história não vou contar agora, pois é bem longa. Mas até a polícia italiana, numa blitz, me parou por acaso na volta da faculdade, apreendeu minha carteira e o carro – que nem era meu. Eu tinha a carteira internacional, mas eles falaram que não era válida. Depois fui até falar com o juiz, que acabou me dando razão. Mas todo esse processo levou meses.

Mas quero dizer que, se eu não tivesse tentado, e aproveitado a oportunidade, hoje não estaria fazendo o que faço. Foram muitos anos, dos quais 4 foram só de estudo. Mais tarde, aperfeiçoamento em ilustração infantil também.

Muita gente pensa que as coisas acontecem facilmente. Não sabem dos anos que levamos aprendendo e nos preparando. Nem sempre estão dispostos a pagar o preço.

O tempo é inexorável, não volta. Temos que pensar no que podemos fazer HOJE para dar mais um passo em direção ao nosso objetivo.

Qual é o processo que VOCÊ precisa passar para chegar ao seu objetivo? Qual é o seu plano? Quais são os pequenos passos que você precisa fazer para que, quando chegar aquele momento que você espera, você já terá realizado e estará à frente no seu plano?

Divida seu planejamento em etapas e vá fazendo aos poucos. Não deixe para depois. Isso vai só trazer muita frustração com o passar dos anos.

Quem falha em planejar, já está planejando falhar.

Lembre: sempre há um preço a pagar. Você escolhe quando: antes com um custo menor, ou depois com um custo maior.

Ontem, li uma frase interessante, de Simon Sinek:

Trabalhar duro por algo que não curtimos ou valorizamos se chama stress.

Trabalhar duro por algo que tem sentido para nós e que valorizamos se chama PAIXÃO.

E é verdade. Quando gostamos de algo, as horas passam rápido e trabalhamos com afinco. Nem parece trabalho, alguém diria.

A mesma pessoa que falou a frase acima diz que há dois tipos de pessoas: aquelas que veem o objetivo depois do grande esforço. E aquelas que veem o grande esforço e que não acham que vale a pena a jornada para chegar nele.

Qual deles é você?

Para finalizar, pense no que te impede de fazer o que quer para rumar em direção ao seu sonho. Faça uma lista do que está lhe dificultando.

. São os outros?

Não podemos culpar os outros pelo que nós não conseguimos realizar. Somos nós que fazemos nossas escolhas e que arcamos com as consequências delas.

. É falta de ajuda?

Embora nem todos seja assim, algumas pessoas estão dispostas a ajudar. Basta tentar.

. É falta de recursos?

Há muita coisa que tem custo baixo. Na verdade, é tudo uma questão de prioridade. O que é mais importante: o seu sonho ou seu ‘cafezinho’ diário? Uma profissão que vai te dar qualidade de vida ou uma pizza no mês?

. É falta de tempo?

É possível se preparar mesmo em períodos de tempo pequenos. Cinco a dez minutos por dia são 30 a 60 horas num ano. Já pensou no quanto pode aprender e praticar em 30 horas? Muitas vezes perdemos mais tempo nas redes sociais do que em algo educativo.

Enfim, algo que precisamos muito – também – é entender que as coisas não acontecem da noite para o dia. Tudo que é bom, requer tempo para se desenvolver.

As plantas precisam de tempo para crescer, um bebê precisa de 9 meses para se desenvolver, e eu gosto do exemplo que Deus nos deu ao criar o mundo. Ele levou 6 dias. Sendo Deus, Ele não poderia ter criado num ‘piscar de olhos’?

Eu sempre uso esse exemplo com meus filhos. Se Deus criou o mundo em 6 dias e descansou no 7º, é porque Ele queria nos mostrar como devemos fazer as coisas: devagar, de modo constante e descansando de vez em quando.

Não precisamos fazer tudo correndo. Podemos começar já a dar passos em direção ao que almejamos. E quando vier aquele momento que você espera, onde tudo será perfeito, você já estará preparado.

Estou trabalhando num projeto diferenciado, que está em teste. Se você está numa situação assim, onde tudo parece difícil, mas gostaria de aprender a ilustrar aos poucos, devagar, por um preço baixo, dedicando 10 a 15 minutos por semana, entre em contato comigo.

Ilustrado fim de semana para você!

Bloqueios criativos & o medo do papel em branco

Às vezes alguns ilustradores passam pelo que chamamos de ‘bloqueio criativo’. As ideias parecem não vir, a inspiração não surge e vem aquele famoso ‘medo do papel em branco’.

Na verdade, o medo do papel em branco é algo que acontece com todo mundo, principalmente quando estamos iniciando.

Temos medo de estragar um material caro, medo de usar os lápis e tintas que foram um investimento…

Isso, na verdade, é uma insegurança que temos. Às vezes achamos que ainda não somos ‘bons’ o suficiente para usar materiais profissionais e temos medo de desperdiçar os mesmos. Outras vezes temos o medo da expectativa dos outros em relação ao nosso trabalho.

Fato é que, se não fizermos nada, aí sim que é um desperdício. De tempo e de material, que vai ficar velho se não for usado. Papel estraga, fica amarelado, a tinta seca…

Eu ficava bem chateada comigo mesma quando errava algo, logo que comecei a ilustrar. Pensava: esse papel custou tão caro… às vezes até guardava com a esperança de poder consertar.

Com o tempo fui percebendo que, ao errar, estava aprendendo e que isso era muito válido. E o que tinha feito errado era, na verdade, algo que estava no dentro de mim, que tinha que sair, e que eu tinha que passar para o papel para poder prosseguir para o próximo passo. Mais ou menos como níveis de vídeo game. Eu tinha que passar por aquela ‘fase ruim’ para poder passar para o próximo nível. Tinha que passar por aquela experiência ‘errada’ para poder avançar.

E hoje vejo desse modo: desenho, desenho, desenho e não me preocupo mais com os trabalhos ruins que aparecem no início. Sigo adiante e vou fazendo até que fique satisfeita com o resultado.

Além disso, tem um outro aspecto interessante no que se refere aos chamados ‘erros’. Já perdi a conta de ilustrações que, ao fazer algo inesperado, descobri uma nova maneira de usar os materiais ou até uma nova possibilidade de técnica. Muitas invenções foram criadas inesperadamente e assim também acontece com a nossa jornada artístico-criativa. Acabam surgindo até ideias novas com esses imprevistos.

Lembre-se: o medo não impede o erro. Impede somente que você se desenvolva e siga adiante no seu percurso.

Se o medo de errar persistir, pense que é só uma folha de papel e um pouco de tinta. Não é nada grave. Pior seria perder o seu tempo, esse sim inexorável.

Material que você usou até é possível recuperar, comprando novamente. Mas o tempo perdido não se recupera. Esses minutos que parecem ter sido perdidos podem vir a poupar muitos outros no futuro.

Por isso, não tenha medo de começar algo. Se o bloqueio criativo persistir, pingue algumas gotas de tinta, da sua cor preferida, no papel e fique olhando para elas até ter alguma ideia. Tenho certeza de que elas vão te inspirar e algo vai surgir. E o papel em branco, aquele dava tanto medo, já não existe mais.

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Materiais Artísticos são Caros?

Quando temos o sonho de trabalhar com arte, a primeira coisa que assusta é o custo dos materiais artísticos.

De fato, materiais de qualidade são realmente um investimento.

Entretanto, é fato que o resultado final de nosso trabalho será impactado pela qualidade dos materiais que usamos.

Lápis de cor, por exemplo, tem uma diferença incrível quando você usa algo que tem qualidade. A pigmentação é mais intensa, a mina costuma ser mais macia, e não é preciso fazer esforço para colorir.

Tintas também. Quando usamos materiais mais baratos, percebemos logo que não conseguimos efeitos que vemos em trabalhos de outros artistas ou ilustradores.

Meus alunos costumam me perguntar como faço alguns efeitos. Alguns me escrevem e enviam seus trabalhos. Porém, o tipo de tinta interfere imensamente no resultado do trabalho também.

Existem materiais escolares, de hobby e os chamados artísticos ou profissionais.

Os materiais escolares são geralmente os mais em conta. São mais baratos, tem pouca pigmentação, e como uma aluna comentou: ‘agora eu sei porque passava tanta raiva ao pintar com lápis de cor’. Porque as cores são “apagadas” e é preciso apertar muito para conseguir preencher um pouco do papel com eles.

Já os materiais de hobby são um pouco melhores. Há, por exemplo, lápis de cor de muita qualidade nessa área. Os lápis GoldFaber, da Faber Castell, segundo a própria fabricante, se enquandram nessa faixa. São excelentes, na minha opinião.

E há os profissionais, como os Aquarelle, da Caran d’Ache, que são os top de linha.

Porém, não é necessário investir num lápis de cor tão especial. Existem alternativas mais econômicas, que tem um resultado muito bom. Confira lá no fim algumas alternativas mais em conta.

Tem muita gente que diz: “Ah, eu não vou pagar esse valor numa caixa de lápis de cor. É muito caro”.

Será que é mesmo?

Eu vejo da seguinte maneira: o investimento que o ilustrador faz o ajuda a produzir ilustrações. Se isso possibilita que ele tenha retorno financeiro, por que não investir em algo assim?

Se formos reparar bem, quando alguém trabalha como padeiro, tem que investir nos insumos, num forno, numa batedeira, numa geladeira… se realmente for um profissional.

Um advogado tem que investir em roupas melhores, um laptop, um celular muito bom, e em muitos livros. Sem falar nas taxas e registros. Só de exame da OAB, tem que pagar 260,00 reais. Se ele passar, não precisa pagar isso. Mas se não passar, quantas vezes vai ter que pagar esse valor? Isso sem falar nas anuidades da classe.

Um médico tem que investir nos equipamentos, aparelho de pressão, estetoscópio, móveis, maca, sem falar no aluguel do consultório e a anuidade do CRM.

Um lojista tem que investir na loja, no aluguel, em prateleiras, etc… sem falar no estoque, que ele nem sabe se vai vender. Funcionários, taxas e impostos…

Enfim, pensando assim, se comprarmos um lápis de cor profissional, mesmo que seja caro de início, quantos anos vai durar? Muitos anos, pois usamos uma só pontinha dele para pintar uma parte no papel. 

Pensando nisso, o investimento acaba sendo bem em conta, pois só vamos usar lápis e papel. 

Enfim, eu tenho várias caixas de lápis de cor. O investimento que fiz foi pequeno em comparação com o retorno que eles já me deram.

Para finalizar: se alguém deseja levar a sério a profissão do ilustrador, tem que ter pelo menos um investimento mínimo em bons materiais.

Abaixo indico alguns lápis de cor aquareláveis que tem excelente qualidade e um custo médio.

Goldfaber, da Faber Castell  –  https://amzn.to/2WJChLz

Mondeluz – https://amzn.to/3h1r3ct

Staedtler Karat – https://amzn.to/2Ylc4Ul

Lyra – https://amzn.to/3DVbTzF ou https://amzn.to/3n0fDtq

Faber Castell Albrecht Dürer – https://amzn.to/3n8WNQK

Não fique contente

Algo recorrente que noto na maioria das pessoas que começam a desenhar e ilustrar, é que buscam um resultado satisfatório desde a primeira tentativa. E quando não o conseguem, acabam por desistir acreditando que não sabem desenhar.


Fato é que os desenhistas não desenham sempre bem. Desenham mal também. Às vezes, estamos desenhando algo e, como já falei aqui antes, o cérebro manda e a mão não obedece. A linha fica torta, os olhos ficam grandes ou pequenos demais, o nariz fica no lugar da boca… enfim, é muito comum que isso aconteça.


Quando temos que escrever algo como uma redação, é comum que o façamos uma vez, aí lemos e revisamos. Depois lemos e relemos várias vezes até que fique do jeito que queremos. Reescrevemos parágrafos, mudamos o que estava no começo para o fim, e vice versa. Não é verdade que temos até uma folha para rascunho, a fim de passar para a folha final somente depois que estiver pronto?


Com um desenho é mais ou menos a coisa. Temos que fazer um rascunho, definir as linhas, esboçar detalhes, e somente depois de um tempo que vamos ajustando o que queremos. É preciso desenhar e redesenhar muitas vezes para que algo fique do jeito que a gente quer.


Há alguns meses eu comentei aqui sobre o mesmo assunto. Porém, ainda assim, essa é uma das queixas que mais ouço de leitores e alunos. “Não ficou bom” da primeira vez, “não gostei desse detalhe”, “não gostei das cores” e por aí vai.


Para mim, a solução é bem simples: redesenhar. Talvez seja mais trabalhosa, reconheço. Mas se queremos trabalhar com ilustração, não devemos ficar incomodados de desenhar e desenhar e desenhar. Um aspirante a ilustrador tem que estar disposto a trabalhar em seu desenho várias vezes, mesmo porque alguns clientes pedem alterações. Em outras profissões, as pessoas repetem muitas coisas. Por que com o ilustrador seria diferente?


Por isso, não fique contente com a primeira tentativa. Tente mais vezes, coloque a folha que desenhou contra a janela – ou sua mesa de luz – e redesenhe somente o que gostou na primeira tentativa. O que não gostou, vá modificando. Pode ser um método trabalhoso, mas funciona bem.


E para finalizar, pense: o processo de desenhar, colorir, enfim, ilustrar é muito prazeroso. Fazer linhas e sombras é algo até terapêutico.


Separe um tempo para trabalhar no seu desenho e, caso o resultado não fique a contento, também não fique contente com ele e modifique-o. Faça-o pelo processo de produzir e criar. Faça dele o seu contentamento. 🙂


Um ilustrado final de semana para você!

Roughs – Rafes

O que são os Roughs?

Também muito usada a palavra ‘rafes’, roughs são os esboços ou rascunhos das ilustrações, na maioria das vezes feitos a lápis.

Para que servem os rafes?

Cada pessoa que lê um texto imagina de um jeito. O editor, quando solicita um trabalho de ilustração, não tem ideia do que você está pensando. Como ele terá segurança de que o resultado final do seu trabalho irá de encontro às expectativas dele?

Quando recebo uma solicitação de orçamento, geralmente eu já estabeleço nas ‘condições’ que entregarei os rafes alguns dias depois de ter assinado o contrato e que, após a apreciação dos mesmos, as ilustrações não poderão ser mais alteradas sem ônus.

O tempo de qualquer profissional, inclusive o ilustrador, é precioso e não podemos ficar alterando ilustrações prontas. Temos que passar para o próximo trabalho (ou prospecção, tratativas, negociação) pois é assim que pagamos nossas contas. Apesar de muitos pensarem que o ilustrador passa seus dias ‘rabiscando, desenhando, pintando’, isso não quer dizer que você deva trabalhar de graça.

Voltando aos rafes: Para entrar num acordo e não ter que mudar uma ilustração inteira na última hora, eu sempre faço os rafes a lápis de cada página. Digitalizo essas imagens, monto um arquivo com as mesmas, insiro os trechos do texto referentes às imagens e envio esse arquivo (em formato pdf) para a aprovação da editora (Isso dá trabalho, mas também já me rendeu benefícios!).

Com esse arquivo, o editor não só visualiza como vai ficar o livro, como também tem a certeza de que você pensou em tudo e que não vão faltar páginas para itens importantes como os créditos e a folha de rosto, nem espaço para o texto em cada ilustração. Esse arquivo é muito útil para o diagramador, que não terá dúvidas sobre o que fazer com o texto e a ordem das ilustrações. Somente a partir do momento em que tiver um feedback do cliente, por escrito (no mínimo por e-mail), passo a trabalhar nas ilustrações do livro. Na ilustração digital, é comum os editores solicitarem mudanças depois da mesma pronta, porém, numa ilustração feita com tinta acrílica, é praticamente impossível fazer alterações sem prejudicar a imagem final.

Portanto, o rafe é importantíssimo para o trabalho do ilustrador. Certamente há ilustradores que trabalham de outro modo. Mas eu prefiro ter o aval do cliente antes de me dedicar horas a uma ilustração e no fim ter que alterar porque não passou pelo crivo do editor. Posso dizer que nem lembro de ter feito grandes mudanças em algum rafe até agora, mas isso não quer dizer que eu vá mudar o meu ‘modus operandi’. Prefiro continuar a fazê-los de modo a ter segurança de que a ilustração que estou fazendo não terá que ser refeita e que a editora sabe exatamente o que vai receber.

Outro aspecto muito importante do rafe é o que ele representa para o ilustrador. Um esboço nos ajuda a trabalhar sem a pressão da certeza.

O que quero dizer com isso? Você pode criar livremente, errar, sem ter que se preocupar em entregar aquele trabalho. Pode refazê-lo e modificá-lo quantas vezes quiser, pode riscar e rabiscar por cima. É o que nos ajuda a desenvolver a ilustração. Enquanto desenho pensando no texto, também faço anotações de outras alternativas (cabelo, penteados, tipos de roupa, cor do fundo, pequenos detalhes no ambiente e nas roupas, características das pessoas, onde ficará o texto…). 

Geralmente bem simples, abaixo alguns exemplos do como são os meus rafes.

Tipos de papel que eu uso para fazer os rafes (clique na imagem para saber preços e detalhes).

ANATOMIA & ILUSTRAÇÃO INFANTIL

Quando se trata de desenho do corpo humano, saber desenhar os músculos e proporções corretas é algo desafiador para a maioria das pessoas.

Em muitas faculdades, estudamos anatomia artística por vários anos, às vezes em todos os anos. Esse foi o meu caso. Tive Anatomia como disciplina pelos 4 anos de minha graduação em Belas Artes. Veja alguns estudos que fiz durante esse tempo.

Desenhos que fiz enquanto estudava Belas Artes em Veneza.

As proporções, ossos e músculos são algo fascinante. E muito necessário em alguns campos da área artística.

Entretanto, quando se trata de ilustração infantil, a anatomia não precisa ser perfeita. Vejo muitos aspirantes a ilustrador bastante preocupados com isso.

Mais que uma mão bem desenhada, o que importa em ilustração infantil é que a criança se relacione com a imagem e compreenda a mensagem que ela quer passar. Que suscite emoções, sentimentos, reflexões e até mesmo a deixe intrigada. Que desperte a curiosidade e outros interesses. Que se relacione com a imagem, que construa seu pensamento crítico e que aquilo tenha significado para ela.

A ilustração infantil é, na maioria das vezes, a primeira forma de arte que a criança tem acesso.

Como já falei aqui, a ilustração é uma arte narrativa. Ela conta uma história, transmite uma mensagem, traduz uma ideia ou conceito. É, enfim, uma arte que ‘ilustra’ algo. Geralmente vem acompanhada de um texto. Quando não vem, ela própria se faz ‘narrativa visual’.

São muitas as pessoas que acham que somente desenhar basta para ser ilustrador. Mas alguém pode fazer uma linda obra de arte e não conseguir passar a ideia nem contar a história que deveria.

Há, sim, áreas da ilustração em que anatomia artística perfeita é necessária. Livros para crianças maiores – e não mais ilustração infantil – pedem personagens mais realistas. Mas quando se trata de ilustração para crianças pequenas, a sua imaginação é o limite.

Vejamos uma ilustração do ilustrador francês Christian Voltz. O quanto de anatomia artística há nela? Não é impressionante o quanto ele consegue contar? Note as expressões dos personagens, seu sentimentos…

Ou então a ilustração de Cécile Gambini?

Enfim, não estou dizendo que a anatomia não é importante. É sempre bom saber como é o corpo humano para ilustrar. Mas o fato de não desenhar o mesmo com perfeição não pode ser um impeditivo para que você deixe a sua imaginação aflorar e criar suas ilustrações.

Existe uma frase atribuída a Pablo Picasso, que diz:

⁠Aprenda as regras como um profissional, então poderá quebrá-las como um artista.

Note que interessante: a ideia dessa afirmação é de que o artista teria o direito de quebrar regras. E nós, como ilustradores, somos artistas.

Não é à toa que existe o termo ‘licença poética’. O poeta, como artista da palavra, teria o direito de ‘cometer erros’ de ortografia e gramática para poder se expressar como deseja.

Veja o que diz o dicionário Houaiss:

Licença Poética: liberdade de o escritor utilizar construções, prosódias, ortografias, sintaxes não conformes às regras, ao uso habitual, para atingir seus objetivos de expressão.

Assim, nós também, como artistas, temos o direito de ter a nossa ‘licença artística’, que se trata da distorção de algumas regras, como elementos de anatomia e perspectiva, a fim de poder criar uma imagem que transmita melhor a ideia que queremos expressar.

Para finalizar, a afirmação de Sophie Van der Linden, no livro “Para ler o livro ilustrado”: o “livro ilustrado é uma forma original, livre e que, felizmente, permanece em parte inapreensível” e “que escapa a qualquer tentativa de fixação de regras de funcionamento”. (Clique AQUI para conhecer o livro).

Um ilustrado final de semana!