Inspiração e Referências na Ilustração Infantil

Quando uma nova história chega para mim, já começo a imaginar como vai ser o personagem, o cenário, as roupas… enfim, o ‘clima’ da história.

Depois que eu leio algumas vezes o texto e faço a ‘quebra’ de páginas do mesmo. é hora de começar a fazer o stotyboard e a ‘boneca’ do livro.

Nessa etapa, o que está na minha imaginação já vai tomando forma. Mesmo assim, não deixo de buscar inspiração em fotos de figurinos e cenários reais para evitar desenhar sempre do mesmo jeito.

Um exemplo disso foi uma ilustração que fiz para um livro de poesias “O Voo da Poesia”, em preto e branco. O poema de Rosana Silva fala da menina que está sentada na varanda, quando o vento leva as suas figurinhas.

Por isso, pensei numa casa antiga, de madeira, como as que temos em Curitiba, relíquias de outros tempos, com uma varanda e um jardim. Procurei na internet algumas referências e, entre elas, escolhi esta:

Agora observe a ilustração que fiz:

A ilustração não precisa ser fiel à foto, mas esta serve como referência para a execução da mesma. É possível notar que não a fiz exatamente igual, nem era essa a minha intenção. Mas uma foto ajuda muito a produzir algo diferente do que temos visto, uma vez que somos sempre influenciados por imagens de todos os lados.

Ao buscar novas referências e inspiração, a minha intenção é fazer algo original e que traga emoção ao leitor, ao relembrar a própria infância, muitas vezes recheada de memórias como esta. 🙂

Concursos de Ilustrações: Vale a pena participar?

A Lenda das Cataratas

Concursos de Ilustrações: Vale a pena participar?

Quando estamos começando na carreira de ilustrador, procuramos toda oportunidade possível para mostrar nosso trabalho. Por isso, uma das oportunidades que existem para isso são concursos literários e de ilustração.

Participar de concursos é interessante por vários motivos:

. ficar conhecido;

. se formos selecionados, sentimos que o nosso trabalho foi admirado e tem valor;

. fazer contatos;

. trabalhar com um briefing e datas de entrega;

. conhecer outros trabalhos;

. entender as tendências;

. e até se renovar ao observar outros trabalhos, gerando insights e novas ideias.

Outra vantagem é que aprendemos a ter resiliência. Todo trabalho autônomo requer muita disciplina e resistência. O que quero dizer é que nem sempre nosso trabalho será aceito e teremos que estar preparados para aceitar isso. Às vezes um trabalho de menor qualidade pode vir a ser selecionado, somente porque era a tendência daquele ano ou porque era conveniente que tal ilustrador fosse escolhido. Triste para tantos outros que estavam competindo, mas infelizmente isso acontece em todas as áreas.

Há alguns anos um livro infantil foi premiado aqui no Brasil e causou indignação a alguns escritores e ilustradores. Uma celebridade fez uma seleção de textos de outros escritores e publicou um livro onde as ilustrações eram feitas por ela, embora não fosse ilustradora. O argumento era de, enquanto tantos outros escritores fazem o possível para produzir textos inovadores e de qualidade, o texto não era dela e que só ganhou o primeiro prêmio por ser uma pessoa famosa.

Como os jurados mudam todo ano, também há as preferências pessoais. E muitos concursos já mencionam que a decisão deles é soberana e que todos os participantes, ao entrar no concurso, devem aceitá-la. Não há como recorrer.

Como estudei na Itália, vou começar pelo concurso mais importante de lá: a Feira de Bolonha. Eu diria que é a feira literária mais importante do país. Todo ano eles promovem um concurso onde você envia cinco ilustrações e elas podem ser selecionadas para a mostra e uma das ilustrações apresentadas será a capa do catálogo. No ano passado o prêmio foi de 15 mil dólares, como um adiantamento para ilustrar um livro infantil para a Edições SM (para ilustradores com idade inferior a 35 anos). Outro prêmio foi uma bolsa de estudos da escola de ilustração ARS IN FABULA (para ilustradores com idade inferior a 30 anos). Ilustradores do mundo todo podem participar do concurso. Mais informações veja aqui.

Outro concurso interessante é o Nami Island, da Coréia do Sul. O primeiro prêmio é de 10 mil dólares, a ilustração no catálogo e mostra. Deve-se enviar 5 a 10 ilustrações, que contem uma história. Um ilustrador brasileiro ganhou esse prêmio há alguns anos. Não há taxa de inscrição. Para mais informações, clique aqui.

Em Portugal, há um dos concursos mais importantes da Europa. Acontece a cada dois anos e o prêmio é de 5.000 euros. Clique aqui e leia tudinho em português.

Nos Estados Unidos, um dos concursos mais conhecidos é o da Society of Illustrators. Há uma taxa de inscrição e o prêmio são medalhas e a publicação no catálogo. Leia mais aqui.

No Brasil, ilustradores geralmente enviam suas obras para o Salão do Humor de Piracicaba. São aceitos cartuns, charges, tirinhas e caricaturas. Mais informações aqui.

Muitos concursos de ilustração infantil estão ligados a uma obra literária. Nesse caso, posso citar ainda os concursos da SM, da Kalandraka e Biblioteca Insular de Gran Canaria.

São milhares de ilustradores que participam todo ano. Mas mesmo que o ilustrador não seja selecionado, a participação é uma experiência enriquecedora. Além de ser um gostoso desafio, se for selecionado – ou até mesmo ser o primeiro colocado –  significará um grande salto na carreira.

Por outro lado, existem associações e editoras que podem se aproveitar da situação. Por isso, é importante saber discernir quais valem a pena e quais não.

Um exemplo de um concurso que não vale a pena é quando uma associação cobra uma taxa de valor alto para participar e o prêmio não faz jus a essa taxa. Muitos concursos não cobram nada, portanto é necessário ficar de olho para saber se é um concurso ‘sério’ ou alguma instituição querendo se aproveitar.

Outro exemplo que já vi acontecer é quando uma editora tenta fazer um ‘concurso’ para que os ilustradores disputem quem vai ilustrar um livro ou fazer uma capa, mas não oferecem pagamento em troca. Temos que ficar atentos para não trabalhar de graça. Já fui convidada para um concurso assim. Felizmente associações de escritores e ilustradores enviaram cartas de repúdio e a editora retirou o concurso rapidinho. A desculpa para promover o concurso era de que eles gostavam tanto do trabalho de todos os ilustradores que não sabiam qual convidar. Imaginem quantas ilustrações iriam receber de graça. A intenção era que os ilustradores se sentissem pagos pela honra de terem suas ilustrações publicadas. É o mesmo que comer num restaurante e dizer ao dono que ele deveria ficar feliz que escolhemos o restaurante dele para almoçar.

A editora poderia até argumentar que o ilustrador está tendo ‘exposição’. Porém, uma atitude assim vem a desvalorizar a nossa profissão e pode prejudicar a todos, principalmente quem está começando.

A ilustração é fundamental num livro infantil. E isso mostra o quanto o trabalho do ilustrador é importante. Já imaginou livros infantis sem ilustração?

Dica: uma editora que promova um concurso de livro ilustrado deve premiar o ilustrador com um valor correspondente ao trabalho de ilustrar uma obra. Um exemplo é o citado acima, da SM, que antecipa 15.000 dólares para o premiado, e o mesmo irá ilustrar um livro infantil.

Cuidado também com as associações desconhecidas ou sem relevância que dizem que você foi premiado e irá receber uma condecoração. Basta pagar o diploma, ou taxa “x”, no valor de algumas centenas de reais. Associações sérias são as que promovem eventos e nas quais você não paga nada ou uma taxa simbólica para participar.

Um último conselho: ao enviar ilustrações, verifique antes se são necessários os originais ou uma cópia. Antigamente eram aceitos somente os originais das ilustrações. Mas com o advento das ilustrações digitais, os concursos decidiram receber imagens via email, site ou até mesmo impressões. Caso sejam selecionadas, aí sim alguns solicitam os originais.

Em minha experiência, já enviei originais e recebi vários de volta, alguns cuja expedição foi paga pela instituição e outros que eu mesma tive que pagar. Em uma mostra, enviei três ilustrações. Duas foram selecionadas e a terceira nunca foi encontrada. O pessoal da mostra sequer havia visto a outra ilustração, o que me faz crer que devem ter retirado as duas primeiras e jogado o envelope fora com a outra. E como já estive lá pessoalmente, vi na sala deles que havia centenas de ilustrações que nunca tinham sido devolvidas e que seria muito difícil encontrar alguma coisa. Felizmente eu tinha fotografado a ilustração antes de enviar.

Caso tenha alguma dúvida ou quiser alguma opinião sobre o regulamento de algum concurso, entre em contato. 😉