Oficina de Ilustração para Crianças em Estocolmo – Suécia

Fui convidada para fazer uma série de oficinas de ilustração para crianças do Jardim de Infância (Kindergarten) na Stockholm International School  – SIS, em Estocolmo, Suécia. Irei à escola toda segunda feira, por algumas semanas. Nessa classe as crianças tem entre 5 e 6 anos.
A primeira ‘aula’ foi no dia 17 de março. Comecei a oficina mostrando algumas ilustrações minhas e um roughs que fiz para um trabalho que estou desenvolvendo no momento. A professora, Miss White, sugeriu que trabalhássemos com uma fábula bem conhecida pelas crianças: O Coelho e a Tartaruga (The hare and the tortoise ). A intenção é fazermos um pequeno livro com poucas páginas. Cada página contemplará uma técnica diferente. Também temos a intenção de fazer as contracapas (capas 2 e 3) marmorizadas. Estou ansiosa para ver o resultado!
Nesse primeiro dia, conversamos sobre a fábula e expliquei o que iríamos fazer. Para a primeira página do livro, decidimos apresentar os personagens. Para essa página, os personagens seriam feitos de massinha de modelar, o cenário feito com colagem e a professora finalizaria tirando uma foto.
As fotos do primeiro dia:

Na segunda feira seguinte, no dia 24, fizemos a revisão do nosso storyboard e passamos à execução do cenário (background). Cada criança realizou uma parte do cenário. Ficaram tão entusiasmadas com o trabalho, que o cenário acabou ficando repleto de flores, arbustos, árvores, animais (até um hipopótamo passou a fazer parte da história! Amei!), borboletas, flores, etc… Abaixo o resultado do cenário e uma imagem finalizada por uma das alunas.
Jardim de Infância – 5/6 anos

O que o texto não diz

Em muitos textos infantis, às vezes a história se desenrola de um modo que não sabemos onde os personagens estão ou o que estão fazendo enquanto falam. Uma característica que gosto em algumas ilustrações é quando a ilustração diz algo a mais sobre a história, especialmente quando o texto não diz. Sempre que possível, tento ilustrar de um modo que não seja mera repetição do que diz o texto.

Por exemplo, no início do livro ‘A Busca de Aninha’, que ilustrei, os pais conversam com a filha e o texto não revela o que estão fazendo nem onde estão. Como Aninha tinha acabado de chegar da escola, já foi falando com o pai e a mãe sobre o seu dia. Como ela chegou? Alguém a trouxe? Ela foi sozinha? Estava de uniforme ou não? Sabemos que muitas crianças ainda vão à escola sozinhas, mas como nas grandes cidades geralmente são levadas pelos pais, ilustrei essa parte incluindo a mãe, como se ela tivesse ido buscar a menina. Nesse momento inicia-se a conversa entre os três (pai, mãe e filha) sobre o que aconteceu na escola e me perguntei: onde estavam? Na sala, no sofá? O diálogo era longo, o que tomaria algumas páginas. Considerei que as ilustrações seriam um pouco entendiantes se eles ficassem o tempo todo na sala conversando. Coloquei-me na situação deles: quando meus filhos chegam da escola, o que fazemos, em que lugar da casa estamos? Assim, ao invés de ilustrá-los somente conversando, resolvi incluir na história o que geralmente acontece em algumas famílias quando uma criança chega em casa depois da escola: uma refeição com os pais ou em família. Os personagens, durante o tempo em que estão conversando sobre o ‘problema’ que a menina precisa resolver, arrumam a mesa, comem e retiram os pratos.  Entretanto, desse momento da história, o que mais me chamou a atenção no texto foi o seguinte diálogo:

“— Ai, papai, estou tão nervosa… Não sei bem por onde começar! O senhor vai me ajudar, não vai?

— Pede pra mamãe, filhinha.

— Opa! Não me ponha nessa história. Eu não tenho vocação para detetive — disse a mãe já saindo de fininho.

— Xiii… Estou vendo que vai sobrar para mim — disse o pai já conformado com a nova missão.

— Oba! — exclamou Aninha. — O papai vai me ajudar. Que bom!”

Quando eu li esse texto pela primeira vez, fiquei um pouco impressionada com a atitude da mãe, ‘saindo de fininho’. Eu me perguntei: por que a mãe teria deixado de ajudar a filha? Fiquei me imaginando na situação. O que uma mãe tem tanto a fazer que resolve delegar ao pai essa tarefa com a filha? Para que o leitor não tivesse a sensação de que a mãe não queria ajudar a filha ou que tratou o seu problema com descaso, resolvi ilustrar a mãe levando os pratos para a pia, que já estava cheia de louça. Ou seja, podemos dizer que a ilustração ajudou a elucidar o motivo pelo qual a mãe não poderia ajudar a menina (na interpretação do ilustrador, pelo menos…). Não porque ela não queria, mas porque tinha outras tarefas a fazer.  Veja ilustração abaixo:


Finalizando, é importante ressaltar que essa ‘liberdade’ que tomei foi apresentada e aprovada pelo editor. Como já disse antes em outro post, todas as minhas ilustrações são apresentadas em forma de ‘rafes’ previamente e sempre aprovadas pela editora. Assim a editora tem a segurança de que não terá nenhuma surpresa e eu tenho a segurança de que não terei que refazer nenhuma ilustração.  

OFICINA DE ILUSTRAÇÃO NA FLIM – MEDIANEIRA

Ontem tive o prazer de ministrar uma oficina de ilustração de Hai Cais na Festa Literária do Colégio Medianeira. Foi uma experiência maravilhosa! Havia onze pessoas na oficina, todos muito animados e dedicados! 

Para começar, falamos um pouco sobre ilustração, cores, rafes, como é o meu processo de trabalho. Falei sobre as técnicas que eu uso e a partir daí os alunos escolheram os hai cais que desejavam ilustrar. A oficina deveria durar um hora, mas acabamos ficando quase três horas enquanto todos desenhavam, pintavam e trocavam experiências.

Agradeço a Alvaro Posselt, Gloria Kirinus, Rita de Cássia M. Alcaraz, Célia Cris Silva e Marilza Conceição por terem cedido os hai cais para a oficina!

Agradeço a presença dos alunos (se eu errar na grafia dos nomes, me desculpem, mas como só falamos e não escrevemos, pode acabar faltando ou sobrando alguma letra!): Priscila, Vivian, Lauren, Silvana, Lina, Vítor, Luciano, Natália, Isabella, Gabriela e Yury!

Obrigada ao Colégio Medianeira pela oportunidade!


‘Meramente ilustrativo’ versus a ‘licença poética’ da ilustração

Como ilustradora, acredito que a ilustração em geral não visa apenas decorar um texto ou repetir o conteúdo através de imagens. Mais do que isso, tem como objetivo expressar sentimentos, elucidar aquilo que está nas entrelinhas, provocar até, entre outras funções. ‘Tanto é vero’ que existem livros sem texto e a ilustração fala por si. Seu objetivo não é retratar o mundo exatamente como ele é, mas dar ao leitor a possibilidade de questionar o texto, relacionar o mesmo à sua vida, fazer pensar, suscitar ideias, acompanhar e complementar o enredo. Se pensarmos que toda ilustração deve apenas retratar a realidade, acho não teríamos mais trabalho para ilustradores, mas para fotógrafos. É claro que existem os ilustradores que trabalham com imagens hiper-realistas (que acho fantásticas!), cujo objetivo é retratar o objeto exatamente como ele é. Mas neste caso, vamos falar de algo diferente. A ilustração é muito importante num livro infantil, porque muitas vezes a criança ainda não lê o texto, focando só nas imagens.
Nem sempre o ilustrador é considerado um autor, mas apenas um prestador de serviço. Isso é um equívoco, pois o ilustrador é o autor da imagem e deveria ser até considerado co-autor de um livro infantil. Aqui no Brasil, infelizmente, o ilustrador geralmente não tem o mesmo ‘status’ de um escritor. O escritor é visto como o verdadeiro autor do livro. Isso não acontece na Itália. Lá os dois são considerados autores e ambos os nomes aparecem na capa com a mesma fonte e também com o mesmo tamanho de fonte. E aqui ainda encontramos editores que se recusam a colocar o nome do ilustrador na capa a não ser que esteja previsto em contrato e ainda se dão o direito de modificar a sua ilustração sem lhe consultar. Infelizmente no nosso país o ilustrador ainda é tratado meramente como um ‘complementador’ do texto. Não estou dizendo que a ilustração é mais importante que o texto, mas que ambos ‘contam’ a história sob dois pontos de vista. É importante lembrar, porém, que devemos tomar cuidado para não criar uma ilustração que contradiga o que o texto está dizendo.
Como falei no post anterior, tomei a liberdade de ilustrar a personagem Formigarra com quatro patas. Por que fiz isso? A formiga que morreu de enfarte formigante no livro era a formiga comum, trabalhadeira, que não tinha nenhum momento de descanso ou lazer. O meu objetivo era poder diferenciar a formiga da Formigarra. A formiga comum está retratada sobre as seis patas e leva o alimento na ‘garrinha’. Já a Formigarra, criação de Gloria Kirinus, continua trabalhadeira, mas agora vê o mundo de outra forma, tendo seus momentos de ‘ócio criativo’. Retratada sempre em pé, está ‘humanizada’, visto que nós, seres humanos, temos somente quatro ‘patas’ e, no entanto, somos tidos como seres ‘superiores’ aos demais animais, ditos irracionais. Ela é mais que uma simples formiga, é uma formiga 2.0, sofreu uma transformação, uma metamorfose, é quem une o ‘útil ao agradável’, utilizando até a escalada para conseguir comida e o carrinho de rolimã para arar a terra. Não lhe são mais necessárias seis patas, pois o ‘pesado fardo’ que ela carregava não mais existe. Mais do que usar suas seis patas, agora utiliza o cérebro para resolver seus dilemas. Não deixou de ser trabalhadeira, mas buscou outras alternativas para sua própria vida. É o que podemos chamar de ‘licença poética’ da ilustração. 
Diferentemente do coco na bananeira, ressalto que, se o ilustrador tem a intenção de modificar algo do real, deve deixar bem claro que o fez. Só me dei o direito de eliminar duas pernas da Formigarra porque fica evidente para quem lê o livro de que a formiga comum tem seis patas e está retratada como tal. Ou seja, o leitor tem a possibilidade de ver os dois personagens e questionar o porquê da diferença. E eu pergunto: quando, na vida real, uma cigarra tocaria uma viola e uma formiga voaria de asa-delta? Isso não está escrito no texto, mas enfatiza o conteúdo não declarado na história. 
Formigarra/Cigamiga é um livro maravilhoso que foi escrito há muitos anos mas que trata de um assunto muito atual. O que a escritora da Formigarra/Cigamiga procura evidenciar é que o indivíduo não precisa ser só formiga trabalhadeira ou só cigarra seresteira, mas um misto de ambos, ou seja, enfatiza a busca do equilíbrio entre trabalho e lazer, tão necessária ao bem estar humano. E agora, tanto a Formigarra quanto a Cigamiga passam seus dias ‘tricotando’, trocando ideias, lembrando daquele tempo em que eram apenas cigarra e formiga …