
Lançamento do Livro Curitiba de A a Z


Técnicas de Ilustração: Tinta Acrílica
Quando analisamos o trabalho de vários artistas, podemos observar que, ainda que tenham escolhido o mesmo tema, cada um interpreta do seu próprio jeito.
Como já comentei aqui, durante a oficina que participei em Sármede, cidade da ilustração na Itália, cada ilustrador produziu uma ilustração completamente diferente, ainda que o tema fosse o mesmo para todos. É maravilhoso observar como cada ilustrador tem o seu próprio jeitinho de segurar o lápis e/ou pincel. Os traços e pinceladas de cada ilustrador são feitos de maneira diferente e cada artista tem a sua própria maneira de combinar técnicas para obter um resultado que lhe é único.
Nas minhas ilustrações, por exemplo, sempre faço uma combinação de várias técnicas. Isso, com o tempo, pode até vir a se tornar marca registrada do artista.
Também é muito interessante observar como cada artista tem sua preferência por uma técnica. Há aqueles que amam a aquarela e outros que preferem o acrílico. Há os que só trabalham com ilustração digital e outros que preferem os lápis de cor. Preferências à parte, o fato é que essa variedade de técnicas só vem a enriquecer o mundo da ilustração.

Há muitas técnicas artísticas que podem ser utilizadas pelo ilustrador voltado à literatura infantil. Entre elas, posso citar os lápis de cor, lápis de cor aquareláveis, acrílico, aquarela, colagem, aerógrafo (esse substituído pelo computador por muitos artistas), grafite, carvão, colagem, gravura em geral (metal, madeira e linóleo), gouache, nanquim, recortes de papel, além ainda de técnicas menos convencionais, como tecido, bordado, massinha de modelar…
Como vocês já devem saber, o acrílico é a minha técnica preferida. É uma tinta muito versátil, que seca rapidamente e permite uma variedade grande de efeitos. Com muito água fica parecida com a aquarela e muito espessa permite maravilhosas texturas. À base d’água, o acrílico é relativamente fácil de corrigir numa ilustração. Porém, uma vez seco, fica bem difícil de limpar. Tenho várias roupas com marcas de tintas. Também estraga muito os pincéis se não forem bem lavados. O acrílico pode ser usado com pincéis de cerdas naturais e sintéticos. Eu utilizo ambos, cada tipo para dar um efeito diferente. A tinta acrílica pode ser utilizada sobre várias superfícies, como papel, papelão, plástico, metal, etc.
Algumas marcas de tinta são mais brilhantes, mas eu prefiro as mais foscas para minhas ilustrações. Como secam muito rápido, existem retardadores de secagem que podem ser usados. Como eu moro numa cidade não muito quente, embora de tempo úmido, não costumo utilizar o retardador. Pelo contrário, às vezes uso o secador de cabelos para agilizar o meu trabalho.
Dependendo do papel que se utiliza, o acrílico pode enfatizar a textura e dar um acabamento peculiar às ilustrações. Eu gosto de usar papéis de gramatura bem alta e com texturas.
Para misturar as tintas, não há segredo. A tinta acrílica se mistura de modo homogêneo rapidamente e, se necessário, basta acrescentar uns pinguinhos de água. Para isso, você pode usar um prato de porcelana, bandejas de isopor ou pratos descartáveis. Os pratinhos, embora não muito ecológicos, são muito práticos devido ao fato de não precisar ficar lavando o tempo todo e são muito utilizados por ilustradores.
Embora seja possível misturar a tinta acrílica com alguns tipos de pasta, gel, entre outros ‘auxiliares’, eu raramente os utilizo em ilustrações.
Houve um tempo em que se dizia que havia um jeito ‘certo’ de utilizar a tinta acrílica. Quando eu estudei Pintura na Accademia di Belle Arti di Venezia, havia professores que desprezavam a tinta acrílica em favor do óleo e outros que diziam que o acrílico tinha que ser dissolvido em muita água antes de ser utilizado. Atualmente acredita-se que o potencial do acrílico não tenha sido totalmente explorado.
Concluindo, aquilo que hoje parece errado, amanhã pode ter sido aceito como mais uma nova maneira de produzir arte.
Há algum tempo recebi uma mensagem me perguntando o que era “vinheta”.
Embora eu esteja falando aqui de vinheta como um ‘tipo’ de ilustração, na verdade a vinheta é considerada mais como um ‘tamanho’ de ilustração. Porém, acho que é o único ‘tamanho’ de ilustração que tem um ‘nome’. 🙂
Quando recebo um pedido de orçamento de uma editora, às vezes já vem escrito mais ou menos assim:
2 ilustrações duplas
7 ilustração página inteira
2 ilustrações de meia página
3 vinhetas
Por isso, no começo a gente fica mesmo em dúvida sobre o significado de ‘vinheta’.
Em cada área de atuação, vinheta tem um significado diferente. Na área de ilustração, a vinheta já foi conhecida somente como uma moldura-enfeite, geralmente de pequenas dimensões, com arabescos ou linhas decorativas, até mesmo linhas ‘floreadas’. O nome vinheta teria vindo de ‘pequena vinha’ (plantação de videiras). Por isso, seria uma ilustração com folhas relembrando a videira (planta da uva) . Atualmente, utilizam-se quaisquer elementos decorativos.
Veja um exemplo:

Porém, ultimamente também tem sido utilizada como definição de uma ilustração bem pequena, menor que ¼ da página. Às vezes o editor me fala: nessa página faz uma vinheta.
Veja um exemplo de uma vinheta que fiz para o livro Cheiros:

Portanto, depende muito do significado que o cliente dá para o nome ‘vinheta’ e vale a pena esclarecer com ele o que exatamente tem em mente.

Concursos de Ilustrações: Vale a pena participar?
Quando estamos começando na carreira de ilustrador, procuramos toda oportunidade possível para mostrar nosso trabalho. Por isso, uma das oportunidades que existem para isso são concursos literários e de ilustração.
Participar de concursos é interessante por vários motivos:
. ficar conhecido;
. se formos selecionados, sentimos que o nosso trabalho foi admirado e tem valor;
. fazer contatos;
. trabalhar com um briefing e datas de entrega;
. conhecer outros trabalhos;
. entender as tendências;
. e até se renovar ao observar outros trabalhos, gerando insights e novas ideias.
Outra vantagem é que aprendemos a ter resiliência. Todo trabalho autônomo requer muita disciplina e resistência. O que quero dizer é que nem sempre nosso trabalho será aceito e teremos que estar preparados para aceitar isso. Às vezes um trabalho de menor qualidade pode vir a ser selecionado, somente porque era a tendência daquele ano ou porque era conveniente que tal ilustrador fosse escolhido. Triste para tantos outros que estavam competindo, mas infelizmente isso acontece em todas as áreas.
Há alguns anos um livro infantil foi premiado aqui no Brasil e causou indignação a alguns escritores e ilustradores. Uma celebridade fez uma seleção de textos de outros escritores e publicou um livro onde as ilustrações eram feitas por ela, embora não fosse ilustradora. O argumento era de, enquanto tantos outros escritores fazem o possível para produzir textos inovadores e de qualidade, o texto não era dela e que só ganhou o primeiro prêmio por ser uma pessoa famosa.
Como os jurados mudam todo ano, também há as preferências pessoais. E muitos concursos já mencionam que a decisão deles é soberana e que todos os participantes, ao entrar no concurso, devem aceitá-la. Não há como recorrer.
Como estudei na Itália, vou começar pelo concurso mais importante de lá: a Feira de Bolonha. Eu diria que é a feira literária mais importante do país. Todo ano eles promovem um concurso onde você envia cinco ilustrações e elas podem ser selecionadas para a mostra e uma das ilustrações apresentadas será a capa do catálogo. No ano passado o prêmio foi de 15 mil dólares, como um adiantamento para ilustrar um livro infantil para a Edições SM (para ilustradores com idade inferior a 35 anos). Outro prêmio foi uma bolsa de estudos da escola de ilustração ARS IN FABULA (para ilustradores com idade inferior a 30 anos). Ilustradores do mundo todo podem participar do concurso. Mais informações veja aqui.
Outro concurso interessante é o Nami Island, da Coréia do Sul. O primeiro prêmio é de 10 mil dólares, a ilustração no catálogo e mostra. Deve-se enviar 5 a 10 ilustrações, que contem uma história. Um ilustrador brasileiro ganhou esse prêmio há alguns anos. Não há taxa de inscrição. Para mais informações, clique aqui.
Em Portugal, há um dos concursos mais importantes da Europa. Acontece a cada dois anos e o prêmio é de 5.000 euros. Clique aqui e leia tudinho em português.
Nos Estados Unidos, um dos concursos mais conhecidos é o da Society of Illustrators. Há uma taxa de inscrição e o prêmio são medalhas e a publicação no catálogo. Leia mais aqui.
No Brasil, ilustradores geralmente enviam suas obras para o Salão do Humor de Piracicaba. São aceitos cartuns, charges, tirinhas e caricaturas. Mais informações aqui.
Muitos concursos de ilustração infantil estão ligados a uma obra literária. Nesse caso, posso citar ainda os concursos da SM, da Kalandraka e Biblioteca Insular de Gran Canaria.
São milhares de ilustradores que participam todo ano. Mas mesmo que o ilustrador não seja selecionado, a participação é uma experiência enriquecedora. Além de ser um gostoso desafio, se for selecionado – ou até mesmo ser o primeiro colocado – significará um grande salto na carreira.
Por outro lado, existem associações e editoras que podem se aproveitar da situação. Por isso, é importante saber discernir quais valem a pena e quais não.
Um exemplo de um concurso que não vale a pena é quando uma associação cobra uma taxa de valor alto para participar e o prêmio não faz jus a essa taxa. Muitos concursos não cobram nada, portanto é necessário ficar de olho para saber se é um concurso ‘sério’ ou alguma instituição querendo se aproveitar.
Outro exemplo que já vi acontecer é quando uma editora tenta fazer um ‘concurso’ para que os ilustradores disputem quem vai ilustrar um livro ou fazer uma capa, mas não oferecem pagamento em troca. Temos que ficar atentos para não trabalhar de graça. Já fui convidada para um concurso assim. Felizmente associações de escritores e ilustradores enviaram cartas de repúdio e a editora retirou o concurso rapidinho. A desculpa para promover o concurso era de que eles gostavam tanto do trabalho de todos os ilustradores que não sabiam qual convidar. Imaginem quantas ilustrações iriam receber de graça. A intenção era que os ilustradores se sentissem pagos pela honra de terem suas ilustrações publicadas. É o mesmo que comer num restaurante e dizer ao dono que ele deveria ficar feliz que escolhemos o restaurante dele para almoçar.
A editora poderia até argumentar que o ilustrador está tendo ‘exposição’. Porém, uma atitude assim vem a desvalorizar a nossa profissão e pode prejudicar a todos, principalmente quem está começando.
A ilustração é fundamental num livro infantil. E isso mostra o quanto o trabalho do ilustrador é importante. Já imaginou livros infantis sem ilustração?
Dica: uma editora que promova um concurso de livro ilustrado deve premiar o ilustrador com um valor correspondente ao trabalho de ilustrar uma obra. Um exemplo é o citado acima, da SM, que antecipa 15.000 dólares para o premiado, e o mesmo irá ilustrar um livro infantil.
Cuidado também com as associações desconhecidas ou sem relevância que dizem que você foi premiado e irá receber uma condecoração. Basta pagar o diploma, ou taxa “x”, no valor de algumas centenas de reais. Associações sérias são as que promovem eventos e nas quais você não paga nada ou uma taxa simbólica para participar.
Um último conselho: ao enviar ilustrações, verifique antes se são necessários os originais ou uma cópia. Antigamente eram aceitos somente os originais das ilustrações. Mas com o advento das ilustrações digitais, os concursos decidiram receber imagens via email, site ou até mesmo impressões. Caso sejam selecionadas, aí sim alguns solicitam os originais.
Em minha experiência, já enviei originais e recebi vários de volta, alguns cuja expedição foi paga pela instituição e outros que eu mesma tive que pagar. Em uma mostra, enviei três ilustrações. Duas foram selecionadas e a terceira nunca foi encontrada. O pessoal da mostra sequer havia visto a outra ilustração, o que me faz crer que devem ter retirado as duas primeiras e jogado o envelope fora com a outra. E como já estive lá pessoalmente, vi na sala deles que havia centenas de ilustrações que nunca tinham sido devolvidas e que seria muito difícil encontrar alguma coisa. Felizmente eu tinha fotografado a ilustração antes de enviar.
Caso tenha alguma dúvida ou quiser alguma opinião sobre o regulamento de algum concurso, entre em contato. 😉
O desafio do tempo e o trabalho criativo
Uma das coisas que me surpreende é o quanto a gente consegue fazer quando estamos empenhados. Aqui no blog já falei algumas vezes sobre produtividade. Parece uma coisa que não tem nada a ver com ilustração, mas é algo que me interessa bastante. Acredito que tudo na vida precisa de equilíbrio e por isso que valorizo o tempo em que estou ilustrando. Quero também poder curtir minha família, os eventos, tempo com os amigos, viajar, descansar…
Esse último mês fiz muuuuitas ilustrações. Para um só livro, fiz 26, além ainda de outras 5 para dois projetos futuros, mas que tinham que ser feitas ainda este mês. Para alguns pode parecer pouco, mas quando você trabalha com técnicas tradicionais de pintura, leva um certo tempo para produzir uma ilustração. Nos Estados Unidos, por exemplo, há ilustradores que levam 6 meses para produzir essa mesma quantidade. Isso não quer dizer que todo trabalho que eu faço seja assim. Às vezes tenho bastante tempo para uma quantidade bem menor.
Como todo mundo, às vezes a gente sabe que tem tempo e fica deixando para a última hora. Não é à toa que existem tantos livros ensinando a ‘vencer a procrastinação’. Rsrs…
Eu estou sempre tentando ser mais produtiva, e estudo bastante o que posso fazer para melhorar (às vezes até penso que ‘estudar’ também é um jeito de procrastinar). Uma coisa que eu gosto muito é de sempre fazer ‘um pouquinho a mais’. Acredito que devemos sempre nos desafiar. Com isso não estou falando de fazer algo muito grande. Costumo dizer a meus filhos: se você tem uma tarefa grande, não fique estressado. Divida em partes e faça cada dia um pouquinho. Se for um livro, um capítulo (ou até uma página) é melhor que nada. Se tem um grande trabalho de escola, que tal dividir em partes e destinar um trecho para cada dia?
Eu gosto de fazer um planejamento, divido em algumas partes e vou fazendo um pouco a cada dia. Funciona bem para mim. E foi assim que planejei o meu tempo, não deixando de fazer ainda as outras atividades que tinha todos os dias.
Para fazer uma ilustração, não basta só desenhar. É preciso ler o texto, entender se há algo que o autor quis dizer ou se fez referência a algum outro tema, pensar no que vai desenhar, esboçar, imaginar o que a criança vai interpretar… Depois de terminar o esboço (ou rafe), aí começa o trabalho da pintura, que é a parte mais divertida, na minha opinião. Se bem que às vezes eu gosto muito do desenho em preto e branco também. 😄 Mas o ato de deslizar o pincel sobre o papel traz uma satisfação muito grande para mim.
O trabalho do ilustrador parece fácil para quem está olhando de fora. Como brincam meus filhos: ‘você fica desenhandinho o dia todo’. Mas a verdade é que o nosso trabalho é um trabalho de criação. Ilustrar é um trabalho criativo, portanto o ilustrador é um ‘criador’ de algo. Você consegue imaginar que privilégio? Temos a tarefa de inventar alguma coisa que, até então, não existia. Através de papel, lápis, tintas e também do computador, podemos dar vida a personagens que vão entreter, divertir, levar a questionamentos, encorajar, inspirar, despertar emoções e até mudar vidas. Uma responsabilidade e tanto. E que honra, não?
Ontem ainda comentei com uma amiga que a vida para mim é como um punhado de areia na minha mão. Os anos vão escorrendo e eu fico pensando que 24 horas no dia é pouco para tudo que desejo fazer. Por isso a produtividade é algo que me fascina. Nós, trabalhadores criativos, somos aqueles que não se contentam em ficar na rotina, fazendo sempre a mesma coisa. Às vezes queremos mudar o mundo, às vezes deixar nossa marca, às vezes só queremos produzir algo e ter a satisfação de saber que ‘foi feito por mim’.
Por isso, embora o tempo às vezes seja escasso, ainda assim sabemos que o nosso trabalho vai impactar muitas pessoas. E isso não é maravilhoso?

Como muitas pessoas ficam curiosas a respeito do meu processo de trabalho, resolvi publicar uma postagem sobre o mesmo novamente. Decidi unir duas postagens antigas e, como nos últimos anos o mercado editorial mudou muito, também fiz algumas adaptações.

Várias pessoas me perguntam como faço as minhas ilustrações. Algumas perguntam se são digitais, outras me perguntam como consegui ‘aquele’ efeito, outras não acreditam que eu ainda use materiais tão tradicionais como acrílico e pincéis. Eu até tenho uma mesa digitalizadora que é fantástica, e uso alguns softwares para alguns trabalhos, mas gosto mesmo é das tintas! Principalmente a tinta acrílica. É um tipo de material muito versátil e de secagem rápida, e gosto muito dos efeitos que me permite executar. Enfim, sou fã.
Mas como é que eu faço uma ilustração? Ou melhor, como é que eu organizo o meu trabalho de ilustração de um livro infantil, desde o comecinho? Bem, eu gostaria de apresentar um pouco do meu processo de trabalho na ilustração de um livro infantil.
Análise do Texto, Story-Board e ‘Boneca’ do Livro
Tudo começa com o texto. Geralmente a editora (ou o autor) me manda o texto e solicita um orçamento. O orçamento depende do número de páginas e do formato do livro. Também é importante ressaltar que o valor das ilustrações depende do uso da ilustração.
Depois de acertado o orçamento, prazos, formatos, etc, eu leio o texto várias vezes (alguns trechos eu chego a memorizar de tanto ler) e tento imaginar o que o autor quer dizer com aquele trecho ou frase.Não basta ler só uma vez, a gente tem que ‘sentir’ o texto, de forma que depois possamos ‘traduzi-lo’ em imagens. A cada vez que lemos algo, descobrimos alguma novidade no texto. E, enquanto leio, faço também anotações referentes a outros textos, características dos personagens, sentimentos, lugares… Também imagino o que os leitores vão pensar a respeito daquele trecho, que emoções estão sentido os personagens e quais emoções o texto vai suscitar nos leitores, como é o clima do momento, em que ambiente estariam ou não, se passou certo tempo na história, etc.
Ao mesmo tempo, faço muita pesquisa sobre o assunto do livro, sobre a época, roupas, hábitos, cores, moradias, tipo de vegetação e até leio outros textos que tem afinidade. Enquanto isso, em minha mente os personagens já começam a aparecer… o que vestiriam, traços físicos, personalidade… Faço alguns esboços, procuro referências visuais, não só para saber como poderiam ser, mas até mais para evitar a repetição do que já existe. Sobre animais, por exemplo, observo a anatomia, como é o corpo, suas cores e variações. Embora a anatomia seja importante, muitos ilustradores não se preocupam muito com isso, principalmente no universo do livro infantil. Mas acho a anatomia relevante para que o animal seja identificado. É importante que o leitor não confunda os animais, como acontece com uma luva de silicone que tenho: como as formas são super simplificadas e é cor de rosa, o que na verdade é uma vaca, acaba sendo confundido com um porquinho…rsrs… somente dois chifrinhos na cabeça denunciam a vaquinha. E olhando de frente dá pra dizer que é um lacinho na cabeça da porquinha. 😂
A partir da leitura eu começo a dividir o texto pelo número de páginas. É importante lembrar que no livro há também a folha de rosto, os créditos, e às vezes até dedicatória. Mais do que um story-board, eu gosto de fazer uma ‘boneca’ do livro, onde faço anotações e alguns esboços. Também costumo imprimir o texto e colar os trechos nas folhas. Isso facilita não só a visualização da posição do texto, mas deixa o texto acessível para eu verificar sempre se a ilustração tem a ver com o texto daquela página. É um processo bem artesanal, talvez alguns considerem até meio ultrapassado, mas funciona bem para mim. Além desse processo físico, também costumo fazer a mesma coisa de modo digital: crio um ‘livro’ no computador, insiro o texto separado em cada página, e insiro os roughs (rafes) nas páginas. Esse arquivo é o que eu costumo enviar para a editora para a aprovação dos roughs. Além de apresentar visualmente a ideia do que pretendo fazer ao editor, esse arquivo também ajuda o diagramador – se não for eu mesma a diagramar – a saber o trecho do texto que se refere a cada ilustração e o que deve colocar em cada página.
Roughs – Rafes
E o que são os Roughs? Também muito usada a palavra ‘rafes’, roughs são os esboços ou rascunhos das ilustrações, na maioria das vezes feitos a lápis.
Cada pessoa que lê um texto imagina de um jeito. O editor, quando solicita um trabalho de ilustração, não tem ideia do que você está pensando. Como ele terá segurança de que o resultado final do seu trabalho irá de encontro às expectativas dele?
Quando recebo uma solicitação de orçamento, geralmente eu já estabeleço nas ‘condições’ que entregarei os rafes alguns dias depois de ter assinado o contrato e que, após a aprovação dos mesmos, as ilustrações não poderão ser mais alteradas sem ônus. O tempo de qualquer profissional, inclusive o ilustrador, é precioso e não podemos ficar alterando ilustrações prontas. Temos que passar para o próximo trabalho (ou prospecção, tratativas, negociação, etc) pois é assim que pagamos nossas contas. Apesar de muitos pensarem que o ilustrador passa seus dias ‘rabiscando, desenhando, pintando’, isso não quer dizer que você deva trabalhar de graça.
Voltando aos rafes: Para entrar num acordo e não ter que mudar uma ilustração inteira na última hora, eu sempre faço os rafes a lápis de cada página. Digitalizo essas imagens, monto um arquivo com as mesmas, insiro os trechos do texto referentes às imagens e envio esse arquivo (em formato pdf) para a aprovação da editora (Isso dá trabalho, mas também já me rendeu outros contratos). Com esse arquivo, o editor não só visualiza como vai ficar o livro, como também tem a certeza de que você pensou em tudo e que não vão faltar páginas para itens importantes como os créditos e a folha de rosto, nem espaço para o texto em cada ilustração. Como mencionei no post anterior, esse arquivo é útil para o diagramador, que não terá dúvidas sobre o que fazer com o texto e a ordem das ilustrações. Somente a partir do momento em que foram aprovados por escrito (no mínimo por e-mail), passo a trabalhar nas ilustrações do livro. Na ilustração digital, é comum os editores solicitarem mudanças depois da mesma pronta, porém, numa ilustração feita com tinta acrílica, é praticamente impossível fazer alterações sem prejudicar a imagem final. Portanto, o rafe é importantíssimo para o trabalho do ilustrador. Certamente há ilustradores que trabalham de outro modo. Mas eu prefiro ter a aprovação do cliente antes de me dedicar horas a uma ilustração e no fim ter que alterar porque não passou pelo crivo do editor. Posso dizer que tenho sido ‘abençoada’ e que, até agora, a grande maioria dos meus rafes foram aprovados. Porém, isso não quer dizer que eu vá mudar o meu ‘modus operandi’. Prefiro continuar a fazê-los de modo a ter segurança de que a ilustração que estou fazendo não terá que ser refeita e que a editora sabe exatamente o que vai receber.
Outro aspecto muito importante do rafe é o que ele representa para o ilustrador. Um esboço nos ajuda a trabalhar sem a pressão da certeza. O que quero dizer com isso? Você pode criar livremente, errar, sem ter que se preocupar em entregar aquele trabalho. Pode refazê-lo e modificá-lo quantas vezes quiser, pode riscar e rabiscar por cima. É o que nos ajuda a desenvolver a ilustração. Enquanto desenho pensando no texto, também faço anotações de outras alternativas (cabelo, penteados, tipos de roupa, cor do fundo, pequenos detalhes no ambiente e nas roupas, características das pessoas, onde ficará o texto…).
Geralmente bem simples, abaixo alguns exemplos do como são os meus rafes.
Após a aprovação dos rafes, faço um cronograma e um inventário de ilustrações para que eu saiba o ritmo de trabalho que devo empregar. Há editoras que querem 250 ilustrações para daqui a 30 dias e há aquelas que dão 60 dias para 32 ilustrações. Por isso, organizar o meu trabalho me dá segurança e também sei exatamente o quanto devo fazer a cada dia para entregar o meu trabalho dentro do prazo estipulado.
Em seguida, passo à execução das ilustrações, digitalização e entrega das ilustrações. Dependendo do caso, também faço a diagramação, fechamento de arquivo e envio para a gráfica.
Em breve vou mostrar tudo isso a vocês, pois estou montando um curso completo de como fazer um livro infantil, desde o manuscrito original até o envio do arquivo final para a gráfica. Esse curso será em vídeo e online. O objetivo é alcançar todos que desejam se tornar profissionais de ilustração infantil, mesmo que morem em lugares remotos, não tenham tempo e queiram assistir às aulas conforme a sua agenda permitir. Por isso, como estou em fase de desenvolvimento, esse é o momento certo para você me enviar perguntas sobre a carreira de ilustrador. Ficarei feliz em poder ajudar.
Estes últimos dias tenho trabalhado muuuito! E fico muito feliz com isso. É muito interessante poder criar alguma coisa. O trabalho criativo é muito recompensador.
Essa ilustração acima fiz para um livro infantil baseado na história – real! – de uma menina que era filha de uma catadora de papéis. Um dia ela ouviu crianças ensaiando numa sala e foi ver o que era. E era um trabalho voluntário, cujo objetivo era transformar vidas através do ensino da música. Logo ela estava ensaiando com eles. Mas não vou contar o resto, para não perder a graça. 😉

14. Ao finalizar as ilustrações, eu costumo guardar as mesmas em plásticos apropriados ou em papel de seda. Isso evita que borrem ao encostarem umas nas outras. Você também não precisa enviar seus originais para a editora. Pode combinar isso na hora de negociar.
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