Xi, errei! E agora?

Eu costumo escrever aqui no meu blog o que estou fazendo, com o que estou trabalhando, como eu me organizo, como tentar ser mais produtivo, entre outros assuntos. Porém, às vezes as coisas não acontecem como desejamos. Num mundo ideal, tudo funciona direitinho e com a experiência vamos adquirindo hábitos que previnem que a gente cometa erros. Hoje, enquanto trabalhava, percebi que fiz várias bobagens numa mesma ilustração. Será que era porque eu estava ouvindo música e os neurônios estavam distraídos?  Rindo de mim mesma, pensei: por que não contar no meu blog essa experiência?

Quando eu comecei a trabalhar como ilustradora, lembro que fiz três vezes a mesma ilustração porque estava sempre borrando no mesmo lugar. Era um pedaço que eu havia determinado que deveria ficar em branco. Hoje, aprendi que isso acontece muito e já tenho algumas técnicas para consertar o que não saiu conforme o esperado. A arte é mesmo messy, ou seja, bagunçada. Por mais que eu tente me manter organizada, e isso é algo que tento sempre fazer, pois já percebi que meu trabalho flui bem melhor, ainda assim, quando estou trabalhando num livro e com prazos muito apertados, faço uma bagunça. Confesso que acabo arrumando mesmo só depois que termino tudo. É tinta fora do lugar, pincéis que mais uso fora do potinho deles, pincel prendendo o cabelo, tesourinha perdida, cola, bandejinhas e pratinhos com tinta, lápis de cor na caixa errada, recortes de tecido e linhas espalhadas, sem falar no meu celular, que fica perdido no meio de tudo isso.

Olha como fica, só não conte pra ninguém. Rsrs. 


Meu paninho de limpar pincel já viu dias melhores.

O fato é que, por mais que a gente cuide, ainda assim pequenos acidentes acontecem. Mas como para errar basta estar vivo, graças dou por isso. Só hoje, na ilustração que eu estava fazendo, cometi vários deles:

. Coloquei a ilustração para o lado e esqueci que tinha uma bandeja com cola. Nem preciso dizer que ficou cola no verso da ilustração. 😀 Ainda bem que limpei rapidinho e coloquei um papel por baixo para não grudar em nada caso o que restou de cola ainda estivesse úmido.

. Quando estava acentuando o brilho e a sombra da personagem (luz vindo da esquerda), percebi que nos outros objetos eu tinha feito a luz vindo da direita… 😲 As luzes e sombras não são algo que seja regra numa ilustração, e muitos ilustradores não se preocupam com isso, mas mesmo assim arrumei. 

. Ao levar o pincel para o meu baldinho com água, deixei pingar algumas gotas no desenho… 😶 Limpei os pingos delicadamente com um pincel úmido e absorvi a tinta com um paninho. Uma das vantagens – e desvantagens – do acrílico é que, uma vez seco, não sai mais com água, por isso não estragou o que já estava pronto.

. Para finalizar, ao pintar o rosto da personagem, apoiei a mão em cima da tinta fresca e borrei um pedacinho. 😄 Quanto ao que borrei, consegui limpar porque a tinta ainda estava úmida. Às vezes eu até uso um pedaço de papel para cobrir parte da ilustração para apoiar a mão enquanto estou pintando. Mesmo depois de acabada, como uso lápis para dar acabamento, apoiar a mão pode deixar tudo borrado.

No caso da ilustração que fiz três vezes há alguns anos, hoje percebo que poderia ter feito algo diferente na parte branca. Ter pintado de branco por cima (apesar de não dar o mesmo efeito que eu queria) poderia ter resolvido. Embora seja um recurso que não utilizo muito, atualmente tenho bem mais experiência com programas de computador que podem consertar pequenos detalhes depois da ilustração digitalizada.

Há alguns anos fiz um curso em Sármede, e o professor sugeria sujar o papel para iniciar o desenho. Derramar algumas gotas de tinta era suficiente. Se fosse de tinta vermelha, melhor ainda. Acho que vermelho era a cor preferida dele. Segundo ele, isso tira o medo que o papel em branco dá e desbloqueia a criatividade. 

De fato, isso dá mais liberdade e menos medo de errar, afinal o papel já está manchado mesmo. E, com acrílico, dá pra cobrir as partes que fizemos e não gostamos depois que as manchas estiverem secas. Ou usar os borrões iniciais para formar figuras na ilustração. Como geralmente começo fazendo o fundo da ilustração, não costumo utilizar essa técnica, mas pode ser muito útil se ‘der um branco’ na hora de criar uma ilustração.

E você, já fez alguma coisa que não queria na sua ilustração?  Ou teve um pequeno acidente como eu? Conseguiu resolver? Conte pra mim nos comentários! 😘

Modificações ao Longo do Percurso – Ilustração Infantil

Na semana passada eu falei sobre o meu processo de trabalho e os rafes. Ao escrever aquela postagem, percebi que tinha modificado uma ilustração e nem lembrava. Olha só que interessante.

Quando a autora entrou em contato comigo em 2012 para ilustrar seu livro, eu já me pus ao trabalho e fiz uma rafe da primeira ilustração do livro. 

Veja que na rafe da mamãe pegando o bebê, eu fiz o bebê de costas. No início pensei em fazê-lo chorando virado para o leitor, ou então em pé no berço, entre tantas outras opções.


Porém, ao trabalhar na ilustração, acabei modificando e finalizando a mesma um pouco diferente. Embora seja raro, isso às vezes acontece. 😀

A autora e eu pretendíamos apresentar o projeto a um concurso internacional, e eu deveria fazer uma ilustração completa para anexar ao texto. Ela iria providenciar toda a documentação, montar o projeto e se responsabilizar pelo envio. 
Enquanto eu estava trabalhando nessa ilustração, infelizmente a autora teve alguns problemas particulares, e por isso acabamos não enviando nem o texto e nem a ilustração ao concurso. 

Demos um tempo no trabalho e acabamos retomando somente muito tempo depois. Quando eu fui ver a ilustração que havia feito antes, achei que eu poderia fazer melhor (afinal a gente está sempre tentando melhorar a cada dia) 😀 e decidi refazê-la. Veja abaixo como ficou. 


Esse projeto acabou tomando outros rumos e o livro ‘Cheiros’ foi lançado no ano de 2017, pela Editora Insight. 

Achei super legal ter encontrado essa ilustração antiga e perceber que, só porque algo não foi finalizado naquele momento, ainda assim pôde ser retomado muito tempo depois e resultou num livro tão especial como o ‘Cheiros’! 

Vantagens de ser Ilustradora – Trabalhando Remotamente

Como já comentei aqui no blog, eu venho de uma família bem simples. Meu pai era vendedor e minha mãe dona de casa. Então, embora o meu sonho de ser ilustradora exista desde pequena, antes de realizá-lo precisei de muitos anos de esforço e aprendizado. Trabalhei antes como professora, auxiliar administrativo, costurei lingerie para aumentar a renda, trabalhei como datilógrafa (acredita?), pintei panos de prato (rsrs… acho que só eu desenhei ursinhos carinhosos em panos de prato), fiz crochet nas beiradas, preparei comida congelada para vender no bairro, vendi frutas na feira… Mas o meu sonho mesmo era trabalhar como artista plástica e ilustradora. Mesmo trabalhando em outras áreas, nunca deixei de sonhar com a minha profissão, sempre dando pequenos passos para chegar onde queria.

Mas isso não foi assim tão fácil. Embora eu quisesse fazer faculdade de Artes, não tinha condições nem de arcar com os custos de material para me preparar. Decidi então prestar vestibular para Administração, porque teria ao menos condições de conseguir um trabalho. Com a falta de recursos, o meu único preparo foi o Ensino Médio em uma escola pública. Aliás, estudei em escola pública a vida toda. Fiz Administração, me formei, arrumei um emprego… mas o sonho de trabalhar com ilustração continuava vivo dentro de mim. Depois casei, tive um filho, deixei a empresa onde trabalhava… e decidi que era hora de tirar o meu sonho da gaveta. Prestei vestibular para Desenho. Minha mãe pegava 3 ônibus para ficar com meu filho enquanto eu ia às aulas. Terminado o primeiro ano, meu marido recebeu um convite da empresa: passar dois anos na Itália. Claro que aceitamos na hora. 

No início foi difícil. Muitas coisas diferentes, a cidade bem pequena. Os horários eram diferentes, as matrículas para a escola aconteciam meses antes e nem sempre tinha vaga, tudo muito burocrático. Até o supermercado fechava na hora do almoço e só abria às 15:30h. Para fechar às 18h. 

Mas, mesmo sem falar a língua direito, arrisquei viajar com meu filho de 2 anos para obter informações sobre o curso de Pintura, em Veneza. A viagem de trem levava uma hora e meia e mais 30 minutos de caminhada. Fiz a inscrição para o vestibular, mas também foi muito difícil. Sendo estrangeira, tinha um processo muito burocrático. A documentação tinha que sair do Brasil e passar pelo consulado, toda tradução tinha que ser juramentada, e até foto autenticada tive que fazer. Mas… deu certo e passei no teste.

Foram quatros anos muito corridos. Não foi fácil conciliar casa, filho e estudo, mas consegui terminar a faculdade de Pintura. Para dar conta dos trabalhos, muitas vezes (muitas mesmo) fui dormir às 3h da manhã. Fazer provas orais em outra língua também não foi fácil, mas eu sabia que era uma oportunidade única. Apresentar a tese em italiano para a banca e os alunos foi assustador… tão assustador que, da turma, só 8 se formaram. Outros decidiram deixar para tentar três meses depois, no que chamavam de ‘segunda época’. 

Mas o que quero falar hoje é sobre uma das grandes vantagens em ser ilustradora freelancer, que é a possibilidade de trabalhar em qualquer lugar. Mesmo que você esteja a uns 11.000 km de distância. Atualmente, tudo que você precisa é de uma conexão à internet.


Moramos na Itália de 2000 a 2006, quando decidimos voltar ao Brasil. Em 2014 tivemos novamente a oportunidade de morar no exterior, dessa vez em Estocolmo, Suécia, e lá continuei trabalhando durante todo o tempo em que estivemos fora. Na verdade, mal tinha chegado, e nem tinha ainda internet onde estávamos instalados, e eu já tinha um livro para ilustrar. Foi um trabalho em preto e branco, o qual fiquei muito feliz em fazer.


E, enquanto estávamos lá, pudemos curtir a neve…


Vista do apartamento onde morávamos

Minha filha pôde brincar na neve, fazendo “anjinho”, igual aos desenhos animados. 🙂


Aprendeu a patinar no gelo … 

Aqui eram 16h (no inverno escurecia muito cedo)

Curtimos a cidade e as atrações… Esse é o Parque Skansen.

Ver a Aurora Boreal da janela de casa não tem preço!

Minha mãe adorava cinema e me deu esse nome por causa da atriz Ingrid Bergman. Ingrid era sueca e tem uma foto dela no aeroporto de Arlanda. Sendo um nome popular por lá, tinha até vagão de metrô com o meu nome. E a fase em que a Coca-Cola colocava nomes nas garrafas me fez olhar todas do supermercado até achar uma com meu nome. Rsrs!



Nesses dois anos e meio em que moramos em Estocolmo, pude ilustrar vários livros. Em um trabalho convencional, das 9 às 18h, por exemplo, não teria sido possível eu continuar trabalhando. 

Veja alguns dos trabalhos que fiz enquanto estava fora do Brasil. 









Além disso, ainda fiz outros trabalhos, participei de feiras, seminários, dei workshops para crianças…


Gravura com as crianças da Escola Internacional

E por fim, até aprendi um pouco do idioma. 


Foram experiências maravilhosas. Aquela menina, que morou na Vila Formosa quando pequena, que muitas vezes teve que ir com a calça de uniforme molhada para a escola por só ter uma, jamais imaginou que um dia poderia conhecer outros países. Tive várias amigas enquanto estive fora do Brasil. Muitas tiveram que deixar o trabalho que gostavam para acompanhar o marido enquanto estavam fora. Quanto a mim, o fato de ser ilustradora não só possibilitou que eu continuasse a trabalhar como também pude participar de eventos na área literária. Isso sem falar no aprendizado de nova cultura, possibilidade de visitar museus, galerias de arte e na inspiração que tudo isso nos dá. 

Como todo trabalho autônomo, nem sempre é fácil ser ilustrador. E isso não é somente em nosso país. Mas uma grande vantagem de nossa profissão é que trabalhamos com o que amamos e podemos exercer de qualquer lugar. E isso não tem preço. 😘


Tinta Acrílica

Hoje vou falar um pouco sobre as tintas que eu uso normalmente. Minhas ilustrações são feitas com tinta acrílica. Claro que existem muitas no mercado, mas vou falar sobre as que mais uso. Abaixo coloquei uma foto das que costumo utilizar em minhas ilustrações e vou falar um pouco sobre cada uma delas, começando da esquerda para a direita.

A tinta que, na minha opinião, tem melhor custo/benefício é a Polycolor da Maimeri. Tem bastante pigmento e permite texturas que me agradam na ilustração. É feita na Itália e, como estudei lá na Accademia di Belle Arti di Venezia, era uma das mais fáceis de encontrar. De qualquer forma, ainda hoje é a que mais utilizo, mesmo tendo já experimentado várias outras. É muito versátil e pode ser aplicada sobre várias superfícies.

Também gosto muito da marca Cryla, da Daler-Rowney, fabricada na Inglaterra. Também tem uma concentração grande de pigmento. Comprei várias na Suécia, quando lá morei. São de qualidade superior, mais precisamente ‘profissional’, e também utilizo para texturas. É uma boa tinta para trabalhar com espátula.

A tinta acrílica Brera, também da Maimeri e feita na Itália, é maravilhosa. Não tenho tantas cores dela, porque o preço é um pouco acima da Polycolor, mas duram tanto que vale muito a pena investir nelas. A qualidade dela é superior à Polycolor, na minha opinião. A textura é aveludada e dá um grande prazer deslizar o pincel sobre o papel com essa tinta.

O acrílico System 3, também da Daler-Rowney possui pigmentação menor que a Cryla, da mesma marca, mas também utilizo para minhas ilustrações. Não aceita o lápis aquarelável sobre ela tão bem quanto as outras, mas também é de muito boa qualidade, feita na Inglaterra. Eu diria que é uma tinta para estudantes, como recomendavam alguns professores na Itália. Secam rapidamente e permitem fazer camadas bem transparentes, uma sobre as outras.

Esse tinta da Pebeo, das quais tenho várias cores, é feita na França, e sua qualidade é superior. Permite que eu faça texturas e também aceita bem que eu desenhe sobre ela, diferentemente da Pebeo Studio High Viscosity, aquela de tubo plástico facilmente encontrada no Brasil, que também é indicada mais para estudantes (pelo menos lá na Itália) e o preço é bem mais competitivo. Eu usei algumas Studio, mas para técnica que eu uso, a Pebeo Extra Fine (da foto) é a mais indicada. Porém, quando você faz pinturas muito grandes, as tintas Pebeo Studio são muito boas para pintar o fundo de uma tela.

Comprei alguns tubinhos da Tinta Acrílica LeFranc & Bourgeois na Suécia mais por curiosidade. Com preço acessível, me surpreendeu muito. Achei a qualidade muito boa e funciona bem para minha ilustrações. Tem muitas cores, desliza bem sobre o papel e tem boa cobertura. Permite precisão na pintura e seca rápido. É feita na China.

O acrílico Winsor e Newton nem precisa de apresentação. É de ótima qualidade e esse tubinho dura um tempão. Essa eu também comprei na Suécia e é feita na França.

Por último, o acrílico profissional Liquitex Heavy Body, que comprei em Houston, nos Estados Unidos. Tinta maravilhosa também, com excelente cobertura, bastante pigmento e feita na França. A Liquitex também tem outras tintas acrílicas, como a Basics, mas eu prefiro a Heavy Body para minhas ilustrações.

Por que estou falando onde foram feitas? Porque além desssas, já usei muitas tintas feitas na China e no Brasil, mas essas que citei foram as que mais me agradaram. Às vezes compramos pensando só no preço, mas quando a tinta acrílica tem boa cobertura, isso evita que tenha que fazer mais camadas de tinta. Duram mais tempo, aumentam a produtividade e até mesmo a qualidade do seu trabalho. Em alguns casos, se a tinta tem muito pouco pigmento, pode demorar para cobrir até mesmo a linha do lápis do seu desenho. Claro que isso pode ficar visível, dependendo do seu estilo. No meu caso, eu prefiro que não apareça. Também depende se você usa mais texturas ou não na sua arte. Eu gosto de tintas opacas, ‘encorpadas’ e foscas.  Com exceção da Pebeo Studio, as que uso são em geral de acabamento fosco ou semibrilho.

Se tiver alguma pergunta sobre as tintas que mencionei, e eu puder ajudar, entre em contato comigo no formulário de contato.

Desde já desejo um feliz e abençoado 2019!