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Vantagens de ser Ilustradora – Trabalhando Remotamente

Como já comentei aqui no blog, eu venho de uma família bem simples. Meu pai era vendedor e minha mãe dona de casa. Então, embora o meu sonho de ser ilustradora exista desde pequena, antes de realizá-lo precisei de muitos anos de esforço e aprendizado. Trabalhei antes como professora, auxiliar administrativo, costurei lingerie para aumentar a renda, trabalhei como datilógrafa (acredita?), pintei panos de prato (rsrs… acho que só eu desenhei ursinhos carinhosos em panos de prato), fiz crochet nas beiradas, preparei comida congelada para vender no bairro, vendi frutas na feira… Mas o meu sonho mesmo era trabalhar como artista plástica e ilustradora. Mesmo trabalhando em outras áreas, nunca deixei de sonhar com a minha profissão, sempre dando pequenos passos para chegar onde queria.

Mas isso não foi assim tão fácil. Embora eu quisesse fazer faculdade de Artes, não tinha condições nem de arcar com os custos de material para me preparar. Decidi então prestar vestibular para Administração, porque teria ao menos condições de conseguir um trabalho. Com a falta de recursos, o meu único preparo foi o Ensino Médio em uma escola pública. Aliás, estudei em escola pública a vida toda. Fiz Administração, me formei, arrumei um emprego… mas o sonho de trabalhar com ilustração continuava vivo dentro de mim. Depois casei, tive um filho, deixei a empresa onde trabalhava… e decidi que era hora de tirar o meu sonho da gaveta. Prestei vestibular para Desenho. Minha mãe pegava 3 ônibus para ficar com meu filho enquanto eu ia às aulas. Terminado o primeiro ano, meu marido recebeu um convite da empresa: passar dois anos na Itália. Claro que aceitamos na hora. 

No início foi difícil. Muitas coisas diferentes, a cidade bem pequena. Os horários eram diferentes, as matrículas para a escola aconteciam meses antes e nem sempre tinha vaga, tudo muito burocrático. Até o supermercado fechava na hora do almoço e só abria às 15:30h. Para fechar às 18h. 

Mas, mesmo sem falar a língua direito, arrisquei viajar com meu filho de 2 anos para obter informações sobre o curso de Pintura, em Veneza. A viagem de trem levava uma hora e meia e mais 30 minutos de caminhada. Fiz a inscrição para o vestibular, mas também foi muito difícil. Sendo estrangeira, tinha um processo muito burocrático. A documentação tinha que sair do Brasil e passar pelo consulado, toda tradução tinha que ser juramentada, e até foto autenticada tive que fazer. Mas… deu certo e passei no teste.

Foram quatros anos muito corridos. Não foi fácil conciliar casa, filho e estudo, mas consegui terminar a faculdade de Pintura. Para dar conta dos trabalhos, muitas vezes (muitas mesmo) fui dormir às 3h da manhã. Fazer provas orais em outra língua também não foi fácil, mas eu sabia que era uma oportunidade única. Apresentar a tese em italiano para a banca e os alunos foi assustador… tão assustador que, da turma, só 8 se formaram. Outros decidiram deixar para tentar três meses depois, no que chamavam de ‘segunda época’. 

Mas o que quero falar hoje é sobre uma das grandes vantagens em ser ilustradora freelancer, que é a possibilidade de trabalhar em qualquer lugar. Mesmo que você esteja a uns 11.000 km de distância. Atualmente, tudo que você precisa é de uma conexão à internet.


Moramos na Itália de 2000 a 2006, quando decidimos voltar ao Brasil. Em 2014 tivemos novamente a oportunidade de morar no exterior, dessa vez em Estocolmo, Suécia, e lá continuei trabalhando durante todo o tempo em que estivemos fora. Na verdade, mal tinha chegado, e nem tinha ainda internet onde estávamos instalados, e eu já tinha um livro para ilustrar. Foi um trabalho em preto e branco, o qual fiquei muito feliz em fazer.


E, enquanto estávamos lá, pudemos curtir a neve…


Vista do apartamento onde morávamos

Minha filha pôde brincar na neve, fazendo “anjinho”, igual aos desenhos animados. 🙂


Aprendeu a patinar no gelo … 

Aqui eram 16h (no inverno escurecia muito cedo)

Curtimos a cidade e as atrações… Esse é o Parque Skansen.

Ver a Aurora Boreal da janela de casa não tem preço!

Minha mãe adorava cinema e me deu esse nome por causa da atriz Ingrid Bergman. Ingrid era sueca e tem uma foto dela no aeroporto de Arlanda. Sendo um nome popular por lá, tinha até vagão de metrô com o meu nome. E a fase em que a Coca-Cola colocava nomes nas garrafas me fez olhar todas do supermercado até achar uma com meu nome. Rsrs!



Nesses dois anos e meio em que moramos em Estocolmo, pude ilustrar vários livros. Em um trabalho convencional, das 9 às 18h, por exemplo, não teria sido possível eu continuar trabalhando. 

Veja alguns dos trabalhos que fiz enquanto estava fora do Brasil. 









Além disso, ainda fiz outros trabalhos, participei de feiras, seminários, dei workshops para crianças…


Gravura com as crianças da Escola Internacional

E por fim, até aprendi um pouco do idioma. 


Foram experiências maravilhosas. Aquela menina, que morou na Vila Formosa quando pequena, que muitas vezes teve que ir com a calça de uniforme molhada para a escola por só ter uma, jamais imaginou que um dia poderia conhecer outros países. Tive várias amigas enquanto estive fora do Brasil. Muitas tiveram que deixar o trabalho que gostavam para acompanhar o marido enquanto estavam fora. Quanto a mim, o fato de ser ilustradora não só possibilitou que eu continuasse a trabalhar como também pude participar de eventos na área literária. Isso sem falar no aprendizado de nova cultura, possibilidade de visitar museus, galerias de arte e na inspiração que tudo isso nos dá. 

Como todo trabalho autônomo, nem sempre é fácil ser ilustrador. E isso não é somente em nosso país. Mas uma grande vantagem de nossa profissão é que trabalhamos com o que amamos e podemos exercer de qualquer lugar. E isso não tem preço. 😘


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