Um dia na vida de uma ilustradora :-)

Como a maioria dos brasileiros que tem filho em idade escolar, meu dia começa cedo, mais especificamente às 6:30h. Depois que deixo minha filha na escola, volto para casa, onde fica meu studio também e, antes de começar a trabalhar, faço um café espresso com leite. Acho que ainda não falei sobre isso, mas gosto muito de café espresso. Como meu marido vem de uma família que planta café em Minas Gerais, gostamos de experimentar os chamados ‘cafés especiais’.

Nesse momento em que aprecio um cafezinho, eu leio algumas notícias no jornal, vejo emails, pesquiso sobre ilustração, leio livros de arte… Quanto aos emails, eu gosto de ler e responder com bastante atenção. Como pela manhã a iluminação natural no meu atelier é melhor para desenhar e pintar, prefiro responder meus emails mais tarde. Evito me conectar a redes sociais nesse momento, porque o tempo vai passando, passando e, quando você percebe, já é hora do almoço. Rsrs…

Minha rotina de trabalho começa – efetivamente – com um planejamento do que vou fazer no dia. Sou fã de listas e acho uma ferramente essencial para controlar o meu progresso nas tarefas. Na minha agenda, eu escrevo não só o que vou fazer de ilustração, mas também se vou digitalizar, trabalhar nas imagens, se vou esboçar algum desenho para algum outro texto, se tenho que analisar contratos, pagar contas, ler algum artigo relacionado ao tema do meu trabalho, pesquisar imagens, enviar arquivos, atualizar mídias sociais, etc… Embora esteja trabalhando num livro, às vezes autores entram em contato solicitando ilustrações para livros que estão finalizando. Em alguns casos, já tenho que fazer um esboço ou até uma ilustração para algum projeto futuro. Também já anoto tarefas que, embora não sejam ilustração e pintura, são pertinentes ao trabalho. 
Se tenho algum livro infantil para ilustrar, eu faço um cronograma, verifico o que devo fazer no dia e coloco as ‘mãos na massa’. No momento, estou ilustrando um livro de 48 páginas, com 26 ilustrações. Para fazer esse livro, fiz um planejamento atribuindo dois dias a cada ilustração. Embora eu possa terminar uma ilustração no mesmo dia, a vida não pára enquanto estou trabalhando no meu studio e preciso me preocupar com minha filha, pegar na escola, dar almoço, ajudar nas tarefas, além de outros compromissos que toda mãe tem. Por isso, ter um pouco mais de tempo para finalizar dá mais tranquilidade, principalmente se outras atividades aparecem inesperadamente.
Há vantagens em ser freelancer, pois você pode conciliar a vida de mãe ao trabalho. Por outro lado, tem que ‘ralar’ muito para se manter no mercado. Há muito o que fazer. O salário não chega no fim do mês se não nos prepararmos e trabalharmos árdua e continuamente. Sendo o próprio ‘chefe’ da  empresa, e não tendo ninguém para controlar seu horário de trabalho, temos que cuidar para manter um hábito diário de trabalho, seja por tempo dedicado à sua arte, ou por etapa. Eu prefiro trabalhar por etapa. Me sinto melhor sabendo que fiz aquilo que estava planejado e isso me dá mais certeza da minha própria produtividade. Mesmo sendo uma pessoa que se sente realizada com o que faz, e eu dificilmente fique parada sem fazer alguma coisa, às vezes outras tarefas urgentes podem atrasar o que me propus a fazer dentro de um certo prazo.
Terminando uma ilustração, eu anoto no meu inventário a finalização. Esse inventário é uma ferramenta que utilizo para me manter no controle do meu cronograma. 
Há outras atividades ainda que um ilustrador deve se preocupar: atualizar o portfolio, site, blog ou mídias sociais. Assim como a maioria dos ilustradores autônomos, trabalho sozinha, então eu mesma atualizo tudo. Confesso que não é fácil lembrar de fazer tudo, por isso anoto tudo que tenho que fazer na minha agenda ou no celular. Fazer você mesmo tem seu lado positivo: você pode decidir o que vai postar, como vai fazer, e acompanhar todo o processo até o resultado. O lado negativo é que o seu foco certamente é em ilustrar, e aí você passa a fazer tarefas que não são o seu objetivo, e que poderiam ser feitas mais rapidamente (e até melhor) por outra pessoa. Por isso, às vezes não consigo atualizar o quanto eu deveria. Ser ilustrador significa ter vários trabalhos dentro da mesma profissão: tem que ilustrar, administrar, fazer divulgação, vender, negociar, conferir contratos, entre outros. Também já fui convidada a dar aulas de ilustração online, o que ainda não tive condições de fazer. Mas está nos meus planos.
Um pouco antes do almoço, busco minha filha na escola e eu mesma cozinho, todos os dias. Embora goste de cozinhar e testar receitas, às vezes é um pouco cansativo, mas tento me organizar para facilitar minha vida. A grande vantagem é que sei exatamente a origem do que estamos comendo e isso tem feito um bem enorme à nossa saúde. Após o almoço, às vezes tenho que levar minha filha para outras atividades. Parte da tarde também uso para ilustrar ou trabalhar em outras áreas da ilustração. Tenho ilustrações em sites POD – Print on Demand, faço ilustrações avulsas, capas de livros, cartões postais, pintura em tela, pintura mural, etc… e também as atividades contábeis relacionadas ao meu trabalho. Tudo isso entremeado com as tarefas de casa e um tempo de qualidade com minha filha. 😀
A vida é dinâmica e não podemos deixar de sair, encontrar os amigos, comer alguma coisa fora, fazer exercícios, passear… Quando os afazeres da vida me fazem atrasar o meu cronograma, costumo recuperar trabalhando nos finais de semana e à noite. Já fiquei muitas noites até às 2h da manhã para terminar algum trabalho. Também já dormi 4 ou 5h por noite a fim de dar conta de tudo. Mas isso faz parte da vida e todo mundo passa por isso em algum momento. O ideal é encarar isso sempre como uma bênção, afinal a gente só recebe quando tem trabalho, e agradecer a Deus por trabalhar em algo tão incrível como ilustração e arte. 😍
Participo de associações e ocasionalmente de eventos relacionados a ilustração e leitura. Há vários eventos durante o ano e são muito importantes para não só socializar, mas para manter a sua criatividade. Conversar, trocar ideias e visualizar outras artes nos inspiram a melhorar o nosso trabalho.
Quando não tenho nenhum projeto específico para entregar, me dedico aos meus projetos pessoais. Já trabalhei em projetos voluntários de vários tipos. Entre os meus projetos pessoais do momento, há o livro que estou escrevendo dando dicas sobre a carreira do ilustrador. Tão logo termine, vou disponibilizar no blog. Além disso, também gosto de produzir ilustrações para serem utilizadas em produtos, como canecas, capas de celular, roupas de cama e banho, etc.
A arte e a ilustração já fazem parte da minha vida de tal forma que todos os dias estou produzindo alguma coisa. Porém, prefiro compartilhar o que estou fazendo somente depois de pronto e publicado.
Eu gosto de conversar e me comunicar com as pessoas. Como meu trabalho é bem solitário, o blog é uma ferramenta que me ajuda bastante, pois posso escrever sobre coisas
do meu dia a dia e é um ótimo lugar para expressar ideias. Aprecio quando recebo mensagens me perguntando sobre a profissão de ilustrador. Por isso, se você quiser saber algo ou tiver alguma dúvida, escreva sua pergunta no formulário de contato. 😉

Ilustração para Capa

Olha a ilustração que fiz para a capa do livro “Eu Oro Brincando porque Orar é Coisa Séria”!
Escrito por Helenrose Rocha, o livro está recheado de estratégias e brincadeiras que vão ajudar você a ensinar o hábito da oração na vida dos pequeninos. Voltado para pais, professores de EBD e todo aquele que busca auxiliar as crianças a desenvolverem um tempo de oração com o Senhor.
Disponível para venda em Lodare Publicações

Livro para o Aspirante a Ilustrador

Como sempre recebo perguntas sobre a minha profissão, me animei a escrever um livro com dicas e sugestões para quem deseja iniciar na carreira de ilustrador de livros infantis. Nesse livro estarei não só dando dicas, mas também contando algumas experiências minhas nessa área ao longo dos anos. Embora não esteja ainda finalizado, quem tiver interesse no livro, me escreva ou cadastre seu email. Se você tiver perguntas ou quiser saber mais sobre a carreira de ilustrador, me escreva que ficarei feliz em responder. 😊

Encontrando seu estilo

Muito fala-se atualmente no estilo do artista. É pelo estilo que as pessoas conseguem reconhecer o autor de uma obra de arte, sem nem mesmo ver sua assinatura. Um exemplo forte disso é o estilo do artista Romero Britto. Quem vê, já sabe que as ilustrações tipo vitral, super coloridas, com linhas pretas, pertencem ao pernambucano. Infelizmente, é um estilo que vem sendo muito copiado.

Embora não exista uma regra, abaixo cito algumas dicas para quem ainda se sente inseguro com relação à busca do seu estilo.

1. O seu estilo próprio se revela muito melhor quando você faz arte para agradar a você mesmo

Sempre que mostro meu portfolio para alguém, as ilustrações que mais recebo comentários positivos são as que fiz pensando em agradar a mim mesma. Claro que temos que cumprir o ‘briefing’ de um cliente, mas é fato que, quando não termos a intenção de atingir a expectativa dos outros, conseguimos ficar mais soltos e assim a nossa criatividade flui melhor. Fazemos o que mais gostamos e o trabalho acaba ficando uma expressão mais fiel de nós mesmos.

2. Ir além

Eu gosto muito de me desafiar. Acredito que sempre posso melhorar. E isso é uma característica do artista em geral. Gosto do lema do Buzz Lightyear: ao infinito… e além! 😂 Mesmo trabalhando essencialmente com acrílico, às vezes gosto de tentar outras técnicas. Isso faz com que saia da minha zona de conforto e pode até trazer resultados inesperados. Também pode ser que algum resultado dessa exploração acabe sendo incorporado em minha arte, e isso vai certamente refletir no meu estilo.

3. Procure inspiração

Visitar museus, fazer cursos, observar o trabalho de outros artistas… tudo pode te inspirar a descobrir o que mais gosta numa obra e isso também vai ter impacto em sua arte. Não se trata de cópia, mas o fato de observar o trabalho de outros artistas cria um mix de ideas em seu cérebro que levarão você a fazer algo que pode até vir a ser muito diferente, mas que é só seu. Muitos artistas na história trabalhavam em conjunto ou se encontravam para discutir arte. E muitas vezes isso criou um movimento artístico. Há também artistas que eram discípulos de outros, mas que deram seu toque pessoal ao que faziam. Tudo o que somos é reflexo de uma cultura. Ninguém cria algo do nada. Mas o artista interpreta essa cultura e expressa o que absorve de uma maneira única e individual.

4. Mude o ponto de vista

Após toda essa busca à inspiração, pense: o que eu faria diferente desses artistas? O que eu gosto de fazer que é diverso do que já tem sido feito? O que posso fazer que não seja ‘moda’ no momento?

Embora fale-se muito sobre estilo atualmente, o meu conselho é não se preocupar demais com isso. Desenhando sempre, e muito, o seu estilo próprio vai amadurecendo e você vai ver que as pessoas passarão a reconhecer o seu trabalho com o tempo. A paleta de cores que utiliza, a anatomia da figura humana, o tipo de papel, a técnica, entre outros aspectos do seu trabalho, tudo isso vai contribuir para criar a sua marca dentro do mundo artístico. 😘

Ilustração

O menino e as letras – fiz essa ilustração para a autora Carla Tetamante, antes de começar a ilustrar seu livro ‘A Festa das Letras’. Como ela tem quatro filhos, coloquei as letras de modo que os nomes deles pudessem ser encontrados. Você consegue achar todos? 🙂

O Sonho de se tornar Artista – 2

Como eu dizia na primeira parte dessa postagem, aqui, ao entrar para a Accademia di Belle Arti di Venezia, a jornada só estava começando.

No primeiro ano, tive História da Arte, onde estudamos principalmente a arte italiana. Foi muito interessante, pois ouvi sobre pintores que não são tão conhecidos no mundo afora. Também é interessante poder estudar sobre lugares que eram próximos e que podíamos visitar, como a casa da Peggy Guggenheim, em Veneza. As visitas aos museus italianos eram experiências em que parecia que eu estava dentro de um filme. Visitar lugares onde artistas estiveram, fizeram encontros e discutiram arte era algo que me deslumbrava…

Como as aulas eram em italiano, eu costumava gravar o professor falando, e depois, em casa, ficava até de madrugada repassando o que ele tinha falado para o caderno. Isso foi muito útil para lembrar do conteúdo como também para melhorar meu vocabulário, o que era indispensável, já que as provas eram orais e tínhamos que responder diretamente ao professor.

Também tivemos aulas de Técnicas Pictóricas, onde aprendemos várias técnicas, como aquarela, colagem, pastel, carvão, lápis de cor, sanguínea, acrílico, óleo, etc…

Na aula de Pintura, cada aluno era incentivado a seguir o seu próprio percurso. Éramos livres para decidir o que faríamos e a técnica. O professor ia de mesa em mesa para conversar com cada um e fazer comentários, sempre buscando o aperfeiçoamento. Tive pintura com o professor Eugenio Comencini. Abaixo uma obra dele.

 Eugenio Comencini
Nesse mesmo ano, tivemos Anatomia Artística, onde aprendemos a desenhar o corpo humano e as proporções. O professor também nos incentivou a desenhar o que desejássemos e trazer à aula para comentar. 

Esse desenho fiz da modelo, que neste dia preferiu ficar vestida. Curiosamente, fiz despretensiosamente, e à caneta, mas o resultado agradou muito ao professor, que deu destaque e o apresentou para toda a turma. 
Também tivemos outras disciplinas, como Gravura, onde fizemos xilogravura, calcografia, água forte, etc; Fenomenologia da Arte Contemporânea, onde aprendemos sobre Marcel Duchamp e os Surrealistas; Teoria da Percepção e Psicologia da Forma; Fotografia, que tivemos em dois anos. No primeiro ano não nos era permitido utilizar uma câmera digital. Somente a partir do segundo ano o professor começou a permitir. No início do ano tínhamos que escolher um tema e dali em diante fotografar o que fosse correlato. 
Além dessas e outras disciplinas, também tínhamos que apresentar uma tese. O tema era escolhido por nós, mas tinha que ser aprovado pelo nosso orientador. Eu escolhi o professor de Pintura como orientador. Fiz um estudo da arte brasileira, desde os tempos dos índios até o momento atual. O professor ficou muito feliz com a possibilidade de aprender mais sobre a arte brasileira. Para mim não foi tão fácil, já que na época havia pouca informação na internet. Tive que pedir à minha mãe para pesquisar livros e enviar para mim lá na Itália. (Rsrs…). Ainda bem que ela é uma pessoa muito animada e curtiu muito não só pesquisar, como também ler mais sobre a arte brasileira. 
No último dia de aula, apresentamos nossas teses diante da banca, alunos e familiares. Após o término fomos almoçar juntos, alunos, professores e diretor da Accademia di Belle Arti di Venezia. Não houve uma formatura como temos aqui no Brasil. Achei muito interessante a simplicidade. E é claro: a celebração terminou com muita pasta e vino. 😄
Não foi fácil estudar em outra língua, mas foi um grande aprendizado. Meu filho era pequeno e muitas vezes eu tinha que sair antes da aula ou chegar atrasada porque tinha que levar e pegar na escola. Mas é bom saber que superamos mais uma etapa e estamos prontos para outra. Que se nos dedicarmos, podemos atingir um objetivo que pouco tempo antes parecia muito difícil. Aprendemos também que nem sempre faremos algo perfeito, mas será o nosso melhor e que às vezes vamos surpreender a nós mesmos. Por isso, se você tem um sonho, não desista e faça seu plano. Isso fará com que dê passos para que esteja
cada dia mais perto de seu objetivo. E qual o melhor momento para começar? Bem agora. 😉