“VOCÊ AINDA NÃO ESTÁ PRONTO(A)…”

Olhe para os dois lados (Look both ways) é um filme que estreou na Netflix essa semana, e que mostra dois lados de uma situação. Na verdade, mais que dois lados, tenta mostrar como seria a vida da personagem em dois caminhos divergentes.

Spoiler Alert: Se você ainda não assistiu, vou falar um pouco sobre a história nessa postagem, então, perdoe-me por contar um pouco do que acontece. Prometo não contar o fim do filme e me ater somente ao necessário.

Eu confesso que o enredo me chamou muito a atenção, embora a história não tenha se desenvolvido de acordo com minhas expectativas, e eu esperava um outro final, mas a parte a respeito da carreira dela foi o ponto alto para mim.

Na minha opinião, não existem somente dois caminhos para cada situação, e a vida tem desdobramentos muito mais complexos que os retratados no filme, mas quero enfatizar algo que me chamou a atenção: a protagonista, Natalie, é ilustradora.

No filme, Natalie não trabalha ainda com ilustração, mas o sonho dela é trabalhar com Lucy Galloway, que é, diria eu, dona de um estúdio famoso de animação e, com alguma ajuda, ela consegue realizar esse sonho já no início do filme.

Porém, não como ilustradora, mas como assistente. Durante o filme, vemos pouco do que realmente acontece no estúdio, mas chega o momento em que Natalie pede para Lucy avaliar o portfólio dela.

Ao dar o seu feedback, Lucy diz a Natalie que ela tem talento, que tem boa perspectiva, boas sombras, mas que são pouco originais. Na minha interpretação, Lucy diz a Natalie que ela ‘não estava ainda pronta’ para ser uma ilustradora no estúdio dela. Que ela não era original, que não tinha a própria ‘voz’, que é algo que eles usam muito nos EUA (voice). Eu traduziria aqui como estilo.

O que acontece depois eu não vou contar. Mas é claro que essa decepção vai levar Natalie a passar por alguns estágios do luto da carreira que tanto sonhou: choque e negação – não acredito! -, raiva, depressão, aceitação ou integração e finalmente: transformação!

E é aí que vemos como funciona bem o processo de aprendizagem – não sei se já contei, mas tenho pós em Metodologia do Ensino Superior também.

Entre várias teorias, dizem que existem alguns estágios para aprendermos qualquer coisa.

O primeiro seria você copiar, que é o estágio onde o aluno imita o mestre, pois ainda não domina todas as ferramentas e técnicas.

O segundo seria onde o aluno experimenta, que, diria eu, era onde Natalie estava quando apresentou seu portfólio. Ela pegou o que aprendeu, fez alguma modificações, acertou e errou, tentou fazer sem copiar, mas ainda não havia colocado algo dela mesma no trabalho.

E o terceiro seria quando o aluno já dominou as técnicas, já experimentou, descartou o que não gostava, mexeu aqui e ali, incorporou novas ideias, e criou algo novo, que é só seu, e tem a sua própria ‘voz’ (estilo).

E creio que acontece na vida de muita gente aquele momento em que nos sentimos lá no fundo do poço, mas que é quando percebemos que precisamos tomar uma atitude, retomar a vontade de seguir em frente, agir e dar a volta por cima.

Desenhar e tentar fazer ilustrações e personagens similares aos que já são famosos acaba sendo algo muito interessante para aprender, mas é importante persistir, experimentar, e descobrir o que é seu. Tentar várias técnicas, tentar usar ferramentas diferentes, colocar a mão na massa.

Dias atrás ouvi que nem sempre o melhor é o que tem mais sucesso, mas aquele que é diferente. E, seja bom ou seja ruim, às vezes isso é verdade.

Em ilustração, ser diferente é algo que pode levar você a se destacar no meio de tantas pessoas que tentam dominar o que já existe. Porém, para inventar algo novo, creio que é importante aprender muito do que já existe, para não perder tempo inventando novamente a roda. Aprender com outras pessoas pode ser um atalho para você chegar onde quer muito antes.

Mas não é só isso que o filme me trouxe. Trouxe também uma lembrança de algo que aconteceu comigo, quando comecei nessa carreira, há muitos anos.

Sei que é importante não só contar o que acontece de bom com a gente, mas também mostrar as dificuldades que passamos, para inspirar quem ainda não iniciou. Para saberem que temos que perserverar, não desistir e, principalmente, buscar aperfeiçoamento.

Depois que me formei na Accademia di Belle Arti e voltei para o Brasil, procurei clientes para apresentar meu portfólio. Eu tinha acabado de fazer um curso de aperfeiçoamento em ilustração infantil e tinha sido maravilhoso. Isso já faz muuuuito tempo. Foi logo que comecei a ilustrar.

Indicada por uma conhecida, entrei em contato com uma escritora com vários livros publicados. Ela achou o meu trabalho maravilhoso, e até começou a produzir um livro para que eu ilustrasse para ela. Confesso que fiquei exultante em saber que meu trabalho tinha inspirado alguém a produzir um livro.

Assim, nos dias que se seguiram, trocamos muitos emails e – naquele tempo – não tinha ainda o Whastapp, então usávamos também o Messenger do Facebook que, na época, nem tinha esse nome.

Enfim, conversamos bastante, perguntei exatamente o que ela queria, fiz até alterações, por mais difíceis que fossem, pois queria muito agradar à minha cliente.

Para apresentar melhor meu trabalho para a editora, pedi um trecho do livro para a escritora (eram contos infantis) e ilustrei três deles.

Fiz o meu melhor. Caprichei na composição, no desenho, na técnica e… enviei para a escritora, que iria levar na editora, junto ao texto dela.

Alguns dias depois, a escritora me respondeu que tinha ido até a editora (tempos um pouco menos virtuais do que hoje) e apresentado o trabalho – meu e dela, e que eles tinham gostado muito da ideia do livro, e que tinham interesse em publicar. No entanto, quanto a mim, a notícia não era tão boa: acreditavam que eu ainda “não estava pronta” para ilustrar um livro.

Essa ilustração não é parte daquele projeto, mas achei que reflete
bem o estado de ânimo que a gente fica quando perdemos um trabalho.

Confesso que doeu bastante e que fiquei bem decepcionada. Uma grande chance desperdiçada. Me senti no fundo do poço.

Ela também me contou que eles já tinham alguém em mente para ilustrar o livro dela, o que de fato aconteceu mesmo.

Quando eu vi quem tinha ilustrado, fiquei até um pouco aliviada, pois era alguém que estava muito em evidência e, acredito eu, daria mais visibilidade ao livro. Daí o motivo de não terem me escolhido.

Na verdade, a pessoa que ilustrou já tinha uns 30 anos de experiência, fazia um bom trabalho, tinha um estilo diferenciado e era famosa por suas artes.

Pensar que não fui trocada por alguém ‘normal’, mas uma pessoa já bem estabelecida na área serviu para me consolar de que eu não era tão ruim assim. Perdi um trabalho, mas pelo menos perdi para uma ‘celebridade’. (Ok, ok, vai que eu não fazia tão bem assim… mas deixa eu me iludir nessa questão. Rsrs!).

Enfim, isso me marcou muito. E me ajudou a perceber que, não é como dizem por aí, que basta você desenhar, fazer um curso superior de artes, ou então só saber vender, mesmo que você desenhe ‘bonecos-palito’.

Verdade! Já ouvi gente dizendo que é só o marketing que faz vender o seu trabalho, que você não precisa nem saber desenhar.

Mas… será mesmo?

Veja o meu caso: eu tinha a história, o autor, a editora… e mesmo tendo feito cursos de arte e especialização na área de ilustração de livros infantis, ainda assim não consegui o trabalho.

Voltando à nossa história, já faz tempo que isso aconteceu, eu era iniciante e não conhecia tudo o que sei hoje sobre ilustração.

Foi necessário uma decepção como essa para eu perceber que não bastava desenhar, ter técnicas, ter o cliente. Havia outras coisas que eu tinha que aprender ainda.

E corri atrás. Corri atrás e aprendi tanto que agora não dou mais conta de atender a todos que me pedem orçamento.

Com o tempo fui percebendo que não basta somente saber desenhar, não basta somente saber técnicas, não basta ter somente ter contatos, ou saber divulgar e vender seu trabalho. É um conjunto de todas essas coisas – e talvez algumas outras – que faz com que você seja bem sucedido.

Como eu já mencionei aqui antes, o sucesso é a soma do preparo mais a oportunidade.

Não adianta saber fazer tudo direitinho e não ter oportunidades. E também não adianta ter só oportunidades e não ter um bom trabalho.

Então, para ser bem sucedido na área de ilustração, e principalmente o meu nicho, ilustração infantil, você tem que ter um trabalho BOM, de qualidade.

Aprendi isso a duras penas, e acho que muita gente passa anos batendo a cabeça – como eu – até aprender. Mas quanto tempo desperdiçado!

Estamos num processo de eterna aprendizagem. E há áreas que, se você não se atualizar, a sua graduação não servirá por muito tempo. Tecnologia da Informação é uma delas. Quem se formou há dez anos, se não estiver no campo de batalha, ou aprendendo diariamente, verá seu conhecimento se tornar praticamente obsoleto.

Eu mesma sou graduada em Administração, depois fiz uma pós em Marketing, uma pós em Metodologia do Ensino Superior, então resolvi correr atrás do meu sonho: me formei em Belas Artes na Itália, e fiz mais alguns cursos de aperfeiçoamento em ilustração infantil, na Itália e na Inglaterra.

O que quero dizer com isso: para estarmos prontos para o mercado de trabalho, temos que nos preparar e estar sempre atentos às mudanças. Todo dia tem alguma novidade.

Estudar, praticar, desenhar, aprender novas técnicas, aprender a apresentar seu trabalho, mostrar expertise, demonstrar que conhece o processo… tudo isso é importante para que, quando surgir a oportunidade, estejamos preparados e não tenhamos que ouvir: “Você ainda não está pronto”.

Um excelente final de semana!