Antes de eu começar a ilustrar, eu sempre imaginava como seria o meu trabalho. Um atelier grande, com janelas enormes, sempre iluminado, e eu ilustrando o dia todo. Eu teria um “agente”, que faria toda a parte comercial e financeira para mim… Aguardaria a inspiração chegar e seria ‘descoberta’… 🙂

Mas a realidade nem sempre é assim e, como tudo na vida, às vezes a mídia e a internet gostam de enfeitar e ‘romantizar’ as coisas.

A verdade é que o ilustrador, pelo menos aqui no Brasil, dificilmente tem alguém que o ajude a procurar clientes. Já nos EUA existe a pessoa do “agente”, e tem editoras e empresas que fazem as tratativas somente com o mesmo.

Raramente as coisas acontecem por acaso e dificilmente seremos ‘descobertos’. Temos que ‘correr atrás’, divulgar o trabalho, e às vezes nosso portfólio nem chega à pessoa certa. Uma desvantagem de ter um agente seria ter mais um custo; por outro lado, teríamos mais tempo para desenhar, ilustrar e fazer muita arte. 🙂

Muitos perguntam de onde tiramos a nossa inspiração. Mas outro fato a respeito da nossa carreira é que nem sempre dá tempo para esperar pela inspiração. Temos uma data de entrega e às vezes aquela ilustração não vai ficar exatamente como você queria e, infelizmente, o bom terá que ser suficiente, porque não dá tempo de tentar fazer o ótimo.

Outra visão que as pessoas tem do nosso trabalho é que passamos o dia todo a desenhar, e que não há necessidade de estudar, praticar, pesquisar… Mas a verdade é que precisamos inventar mundos imaginários, cenários que existem na cabeça de outras pessoas, criar personagens, pesquisar fatos históricos e, seja digital ou manual, uma ilustração leva tempo e também cansa ficar sentado na frente da prancheta ou cavalete.

Outro mito da profissão do artista é aquela em que o mesmo fica no ‘ócio criativo’, introvertido e isolado, esperando a inspiração chegar, se chegar… Porém, além de termos que botar a mão na massa já cedo, também é importante nos mantermos conectados com o mundo. Cultura geral e notícias podem vir a ser relevantes para um trabalho. Muitos artigos precisam de ilustrações. E contatos também são muito importantes. Você nunca sabe se o seu vizinho, por exemplo, não trabalha numa empresa que está procurando alguém que faz extamente o que você faz. Já aconteceu comigo, várias vezes, de encontrar alguém casualmente e essa pessoa vir a fazer parte de algum trabalho meu no futuro.

Outro aspecto que aprendi sobre ilustração é que, geralmente, as pessoas gostam da ilustração pelo que ela contém que está relacionado a elas. Se uma pessoa gosta de animais, vai gostar mais de ilustrações que se relacionam a esse tema. Isso é algo que quase não se comenta, mas é verdade que, se o seu foco é ilustrar algum tema específico, é interessante expor ou divulgar seu trabalho onde há pessoas que também apreciem a mesma temática. Como eu citei na semana passada, há muitas possibilidades de trabalho para o ilustrador atualmente. Dê uma olhada na minha postagem anterior.

Uma visão errônea por parte de muita gente é a de que o ilustrador atualmente só trabalha com computador. Muitos ilustradores ainda utilizam meios tradicionais para ilustrar. Ambas as opções tem seu mercado. Há gosto para tudo, basta encontrar o seu público.

Outro mito (enoooorme) é de que o ilustrador está somente prestando um serviço quando faz uma ilustração. A verdade é que o ilustrador é, sim, autor. Autor da imagem, conforme nos assegura a lei de direitos autorais. Eu sempre exijo em contrato que meu nome apareça na capa do livro, ainda que seja em fonte menor que a do autor do texto. Um livro infantil é incompleto sem imagens, e tanto o autor de texto como o de imagem tem direitos autorais morais, ou seja, de serem reconhecidos pelas suas criações. Além disso, já obtive clientes que gostaram do meu trabalho e entraram em contato comigo porque viram meu nome na capa.

Uma falsa verdade é a de que, uma vez recebido o ‘briefing’, o ilustrador tem que se virar e saber tudo o que deve fazer. Às vezes nem o editor ou autor sabem exatamente o que querem. E às vezes não têm ideia de como você faz uma ilustração, então é preciso, sim, que você pergunte tudo o que precisa saber. Não precisa ficar com vergonha. Eu mesma já fiz muitas perguntas a editores ao longo dos anos e vejo que muitos desconhecem várias etapas do processo de criação de um livro. Pode acontecer também deles terem uma ideia mas não saberem se é possível fazer daquele jeito. E pode ser que você venha a sugerir algo muito além do que desejam. Portanto, desafie o medo e a vergonha e parta para a ação: pergunte. Melhor perguntar e aprender do que entregar algo que não era o que esperavam e ter que refazer. Para lembrar sempre: ninguém sabe tudo e todo mundo foi iniciante um dia.

Outro fato interessante é que nem sempre você faz ilustrações para o seu público alvo. Eu faço ilustrações para crianças, mas quem define a compra de um livro, que gosta – ou não – de uma ilustração, geralmente são os pais e os professores.

Uma ideia que permeia até mesmo entre os artistas: de que o artista já faz o que gosta e não deveria focar na parte comercial. Ora, todo mundo precisa trabalhar para viver. Muitas pessoas me pedem para fazer trabalhos gratuitos e, dependendo de quem pede, faço mesmo. Mas há que se tomar cuidado para não virar um hábito, pois pode vir a desvalorizar o que você faz. O ilustrador estuda muito para fazer o que faz. Coloca em prática suas habilidades, se esforça. Para concluir, arte pura é algo bonito, mas todo trabalhador é digno do seu salário.

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Fatos e mitos a respeito da carreira de ilustrador

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